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Povos e Comunidades Tradicionais

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Belo Horizonte é uma cidade marcada pela diversidade étnico-racial, cultural, religiosa e territorial. Essa diversidade se expressa na presença viva de povos e comunidades tradicionais que, ao longo da história da cidade, construíram — e continuam construindo — memória, saberes, formas de trabalho e vida comunitária.

 

São reconhecidos como povos e comunidades tradicionais os grupos que se identificam como tais, possuem formas próprias de organização social e mantêm com seus territórios uma relação que é condição para a reprodução de sua cultura, sua espiritualidade e seu modo de vida. Esse reconhecimento é orientado por marcos legais como a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Decreto Federal nº 6.040/2007, que garantem a essas comunidades o direito à autoidentificação e à consulta prévia sempre que uma decisão pública possa impactar seus territórios e modos de vida.

 

Em Belo Horizonte, essa presença se manifesta em sete comunidades tradicionais: povos quilombolas, povos de terreiro, povos indígenas, povos ciganos, raizeiras, benzedeiras e a comunidade carroceira. Cada uma tem trajetória, território e forma de organização próprios — não compartilham uma única história nem uma única identidade cultural.

 

Quilombolas 

Para a pesquisadora Beatriz Nascimento, o quilombo vai além da ideia de "refúgio de escravizados fugidos". É um símbolo de resistência e autonomia da diáspora africana, um território de liberdade onde pessoas negras reconstroem, de forma contínua, suas vidas, culturas e relações sociais. Nascimento entende o quilombo como um "território corporal" — uma memória coletiva ancorada no corpo negro — e como um conceito que não se limita ao passado colonial: ele se estende a formas de organização atuais, como favelas, terreiros e associações negras.

 

Em Belo Horizonte, a presença quilombola antecede a própria fundação da capital e segue viva hoje: são seis quilombos urbanos, distribuídos em quatro regionais da cidade.

  • Quilombo dos Luízes — presente no território desde 1865, na atual Região Oeste, antes mesmo da fundação de Belo Horizonte. É marcado pela Festa de Sant'Ana e enfrenta pressões urbanas e imobiliárias sobre seu território.
  • Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango — originado a partir de Mametu Muiandê, na Regional Leste, com forte relação entre moradia, espiritualidade, Umbanda, Candomblé e ancestralidade. Em 2012, a comunidade sofreu uma desapropriação com destruição de elementos sagrados.
  • Quilombo Mangueiras — remonta ao século XIX, na atual Regional Norte, com trajetória ligada à agricultura, ao cultivo de mandioca e à memória rural em meio ao crescimento urbano, que reduziu o espaço disponível para plantio.
  • Quilombo Souza — fundado por Elisa e Petrolino Souza, em Santa Teresa, Região Leste. Mantém memória ligada à agricultura, à agropecuária, à carpintaria e a festas como a junina e a de Cosme e Damião.
  • Quilombo Mattias — formado no contexto das migrações de famílias negras para a nova capital, hoje na Regional Leste, no bairro Santa Teresa. Preserva vínculos familiares, memória oral e relação com a agricultura e a música.
  • Quilombo Carolinos — irmandade ligada ao congo e ao moçambique, devotada a Nossa Senhora do Rosário, na Região Noroeste. As festividades do congo e a dança afro-brasileira mantêm viva sua matriz cultural.
Povos indígenas

Povos indígenas são todos aqueles que se reconhecem, e são reconhecidos por sua comunidade, como pertencentes a uma etnia indígena. Sua identidade se constitui a partir de elementos linguísticos, cosmológicos, de parentesco e de vínculo com um território ancestral, sendo garantida pelo direito à autodeterminação como povo.

 

A presença indígena em Belo Horizonte e Região Metropolitana resulta em cerca de 6 mil habitantes de forma fixa e sazonal.

 

Na Região Metropolitana, destacam-se os Pataxó e Pataxó Ha-hã-hãe, da Aldeia Naô Xohã (São Joaquim de Bicas); os Xukuru Kariri, da Aldeia Arapoã Kakyá (Brumadinho); e os Kamakã Mongoió, da Aldeia Kamakã Mongoió (Brumadinho). Já dentro do território de Belo Horizonte, a presença indígena urbana se manifesta de forma dispersa em bairros como Tupi, Taquaril, Céu Azul, Parque São Pedro, Jardim Vitória, Vila Pinho, Padre Eustáquio, São Geraldo e Aglomerado da Serra, incluindo também famílias em situação de mobilidade, como as de origem Warao. Em outras regiões de Minas Gerais vivem ainda os Krenak, na região do Rio Doce; os Aranã, no Vale do Jequitinhonha; e os Xakriabá, no Norte do estado.

 

A cultura desses povos é diversa entre si: cada etnia mantém cosmologia, língua e formas de organização próprias, e não devem ser tratadas como uma unidade cultural única. Em comum, muitos combinam saberes ancestrais com a luta por direitos — como a demarcação de territórios — mantendo presença crescente tanto em áreas rurais quanto urbanas. A identidade indígena não depende do local de moradia: viver na cidade não significa deixar de ser indígena.

Confira Abril Indígena
Povos Ciganos

Autodenominados Romani, os povos ciganos constituem um grupo étnico historicamente marcado pela mobilidade e por fortes vínculos familiares e comunitários. Sua origem remonta ao noroeste da Índia, de onde, por volta do ano 1000, iniciaram um processo de diáspora que os levou a diferentes regiões do mundo. No Brasil, a presença cigana remonta ao período colonial, entre os séculos XVI e XVIII, quando Portugal adotou políticas de degredo que enviaram integrantes desse grupo às colônias.

 

Não existe uma única forma de ser cigano: em Belo Horizonte, a população é composta principalmente por duas etnias, Calon e Rom, cada uma com história e territorialidade próprias. As famílias Calon têm presença nos bairros São Gabriel, Belmonte, Aarão Reis e Céu Azul — território que inclui a chamada Comunidade Cigana do São Gabriel. Já os núcleos de etnia Rom estão presentes em bairros como Santa Mônica, Jardim Atlântico, Horto, Centro e São Luiz.

 

Ao contrário do estereótipo de que "todo cigano é nômade", muitas famílias constroem vínculos fixos e duradouros com o território urbano, mantendo, ao mesmo tempo, práticas culturais e redes familiares próprias.

 

24 de Maio - Dia Nacional dos Povos Ciganos  

No Brasil, o Dia Nacional dos Povos Ciganos é celebrado em 24 de maio. Instituída em 2006, a data também é associada a Santa Sara Kali, reconhecida como padroeira dos povos ciganos e símbolo de fé, proteção e ancestralidade. 
 

Sua referência reafirma a valorização da identidade cultural, das trajetórias históricas e das tradições dos povos ciganos, fortalecendo o reconhecimento da diversidade cultural e da importância do respeito às diferentes formas de viver, organizar-se e preservar seus saberes e modos de vida. O Maio Cigano reconhece a riqueza cultural, os saberes, as tradições e a contribuição histórica dos povos ciganos para a diversidade cultural do Brasil e da cidade.
 

Os povos ciganos constituem grupos tradicionais marcados pela valorização da família, da ancestralidade, das tradições e da autonomia. Ao longo dos séculos, desenvolveram formas próprias de organização social, econômica e cultural, preservando conhecimentos transmitidos entre gerações por meio da oralidade, das celebrações, da música, da dança e das relações comunitárias.
 

A organização social dessas comunidades é fortemente baseada na família extensa, compreendida como uma estrutura familiar composta não apenas pelo núcleo parental, mas também por parentes próximos e agregados que compartilham vínculos de convivência, cuidado e solidariedade. Essa forma de organização ocupa papel central na construção das relações sociais, econômicas e culturais. Em muitos grupos, as lideranças são reconhecidas internamente e exercem importante papel na mediação das relações comunitárias e na preservação das tradições.
 

Em Belo Horizonte, diferentes comunidades ciganas constroem suas trajetórias em territórios urbanos da cidade, mantendo vínculos comunitários, familiares e culturais. Há presença de comunidades em bairros como São Gabriel, Belmonte e Céu Azul, além de famílias distribuídas em outras regiões da capital. Entre as principais etnias presentes na cidade estão os povos Rom e Calon, que possuem histórias, práticas culturais e formas de organização próprias.
 

Os povos Rom possuem origem associada a grupos que migraram historicamente do norte da Índia, passando por diferentes regiões da Europa antes de chegarem ao Brasil. Já os povos Calon têm trajetória fortemente relacionada aos processos de colonização portuguesa. Apesar de trajetórias distintas, ambos preservam práticas culturais, vínculos familiares e formas próprias de organização social que fortalecem sua identidade coletiva. Conforme apontado no estudo Mapeamento participativo da condição das infâncias dos povos indígenas, quilombolas e ciganos de Belo Horizonte, os povos ciganos chegaram ao Brasil no período colonial português e, posteriormente, também migraram de diferentes regiões do continente europeu, mantendo seus costumes, tradições e formas próprias de organização social.
 

É importante romper com estereótipos historicamente difundidos sobre os povos ciganos. Nem todos possuem modo de vida itinerante. Muitas famílias vivem de forma fixa em seus territórios, construindo relações duradouras com a cidade e reafirmando diariamente sua identidade cultural. Reduzir os povos ciganos a imagens estereotipadas contribui para invisibilizar sua diversidade e reforçar preconceitos históricos.
 

As manifestações culturais ciganas incluem festas familiares, celebrações tradicionais, música, dança e formas próprias de sociabilidade, elementos fundamentais para a manutenção da identidade coletiva e para a continuidade das tradições ao longo das gerações. As atividades econômicas também são diversas e envolvem comércio, prestação de serviços e outras formas autônomas de geração de renda, muitas vezes organizadas fora dos modelos formais convencionais.
 

A Diretoria de Políticas de Reparação e Promoção da Igualdade Racial (DPIR), vinculada à Subsecretaria de Direitos Humanos (SUDH) que compõe o quadro da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH), é responsável pela coordenação da Política Municipal de Promoção da Igualdade Racial, e tem como objetivo enfrentar as diversas formas de preconceitos e promover as especificidades dos povos ciganos e suas formas de viver.
 

Neste mês de valorização e visibilidade, reafirmamos a importância do combate ao preconceito e da promoção do respeito aos modos de vida, à identidade, à cultura e aos direitos dos povos ciganos. Que esta data fortaleça o diálogo, a dignidade e o reconhecimento da pluralidade cultural que compõe nossa sociedade.

 

“Optchá” Viva os povos ciganos!

Referência Bibliográfica

SANTANA, Patrícia Maria de Souza et al. Mapeamento participativo da condição das infâncias dos povos indígenas, quilombolas e ciganos de Belo Horizonte. Belo Horizonte: UFMG, 2024. 

 Povos e Comunidades de Terreiro e de Matriz Africana

A história de Belo Horizonte também é marcada pela presença dos povos e comunidades de terreiro e de matriz africana. Desde a construção da capital, pessoas negras vindas de diferentes regiões de Minas Gerais e de outros estados trouxeram consigo conhecimentos, religiosidades e formas de organização comunitária que encontraram, nos terreiros, espaços de preservação da ancestralidade e de resistência ao racismo.

 

Ao longo do século XX, mesmo diante da perseguição e da intolerância religiosa, os terreiros se consolidaram como referências de acolhimento, solidariedade e produção cultural em diferentes regiões da cidade — com maior concentração em territórios como Lagoinha, Concórdia, Venda Nova, Barreiro, São Gabriel e Nordeste, além de centenas de terreiros distribuídos pelo município. Mais do que espaços de culto, os terreiros são estruturados por hierarquias, calendários próprios e sistemas de transmissão de saberes: preservam práticas de cuidado, culinária, música e formas próprias de organização comunitária, funcionando também como redes de proteção social para seus integrantes e para as comunidades do entorno.

 

Belo Horizonte abriga uma das maiores e mais diversas comunidades de matriz africana de Minas Gerais, com tradições como:

  • Candomblé de Ketu (Nagô) — de matriz iorubá, cultua 16 orixás e tem forte presença na cidade.
  • Candomblé de Angola — de matriz banto, relacionado a povos de Angola e do Congo, com culto aos inquices.
  • Candomblé de Jeje — ligado aos povos do antigo reino do Daomé, com culto aos voduns.
  • Umbanda — religião formada no encontro de influências do catolicismo, do espiritismo kardecista, dos candomblés e da espiritualidade indígena, com diferentes linhas e entidades.
     

Essa diversidade expressa a pluralidade das heranças africanas presentes no município e a contínua reconstrução de saberes e práticas ao longo das gerações. A Política Municipal de Promoção da Igualdade Racial, executada pela Diretoria de Políticas de Reparação e Promoção da Igualdade Racial (DPIR), atua junto a essas comunidades — cuja organização e resistência são anteriores à existência da própria política pública — buscando o enfrentamento ao racismo religioso, o apoio à regularização dos terreiros e o fortalecimento do diálogo permanente com as comunidades. Um dos instrumentos dessa atuação é o Guia de Regularização e Imunidade Tributária de Templos de Povos de Matriz Africana.

Carroceiros

A relação de cooperação entre humanos e cavalos está presente no mundo há séculos: não foram as carroças que chegaram a cidades como Belo Horizonte, mas a própria cidade que se desenvolveu, em parte, a partir dessa aliança histórica entre pessoas e animais de tração, como observa a cientista social Marina Abreu Torres. Em Belo Horizonte, a atividade dos carroceiros se consolidou ao longo do século XX, acompanhando o crescimento urbano e a intensificação das desigualdades sociais — muitos trabalhadores passaram a atuar na coleta de materiais recicláveis e em pequenos transportes diante da dificuldade de acesso ao emprego formal, estabelecendo-se principalmente em áreas periféricas da cidade.

 

Desde 2018, carroceiros de Belo Horizonte e Região Metropolitana passaram a se autodeclarar como comunidade tradicional, amparados pela Convenção nº 169 da OIT. Em 2022, essa identidade foi reforçada pela elaboração de um Protocolo Comunitário de Consulta Prévia, que reivindica o direito de a comunidade ser consultada antes de medidas que possam impactar seu modo de vida e seu trabalho. Trata-se de um processo de afirmação identitária. Os carroceiros constituem uma categoria etnográfica e, sobretudo, política, em luta por direitos como o trabalho, o modo de vida e o território, entendido como a própria cidade. Esse processo de autoafirmação segue acompanhado de debates públicos e legislativos na cidade.

 

Os saberes dos carroceiros incluem o manejo dos animais, o conhecimento das rotas e da cidade, e a organização do trabalho de coleta e reciclagem — conhecimentos adquiridos na prática e transmitidos entre gerações.

Benzedeiras e Raizeiras

As raizeiras e as benzedeiras são referências comunitárias no campo do cuidado, guardiãs de saberes tradicionais transmitidos oralmente entre gerações. Em Belo Horizonte, esses saberes chegaram por diferentes caminhos — trazidos por populações indígenas, africanas e europeias — e se fortaleceram em quintais, comunidades rurais incorporadas ao município, terreiros de matriz africana e periferias urbanas, constituindo uma tradição viva que segue presente na cidade, sustentada especialmente pela centralidade das mulheres como mestras desse conhecimento.

 

As raizeiras dedicam-se ao conhecimento e ao manejo de ervas, raízes, cascas e sementes, utilizados na produção de chás, garrafadas, pomadas e xaropes voltados ao cuidado integral das pessoas. Sua atuação pode complementar a busca por cuidado formal, sem se confundir com ele. Já as benzedeiras realizam práticas de cura por meio de rezas, gestos simbólicos e elementos da natureza, atuando no fortalecimento do bem-estar físico, emocional e espiritual das comunidades — a benzeção costuma ser procurada em situações de adoecimento, sofrimento emocional e dificuldades cotidianas.

 

A presença de raizeiras e benzedeiras é reconhecida em diversos territórios da cidade, cumprindo papel importante na preservação da biodiversidade, na valorização das medicinas tradicionais e no fortalecimento dos vínculos comunitários.

GUIA DE ERVAS E RECEITAS TRADICIONAIS

 

🌿MAPEAMENTO PRELIMINAR DE BENZEDEIRAS(OS) E RAIZEIRAS(OS) DE BELO HORIZONTE

Está aberto o mapeamento de benzedeiras e raizeiras da Prefeitura de Belo Horizonte para identificar e conhecer as pessoas que atuam no município. O levantamento será feito de forma virtual, por meio do preenchimento do formulário abaixo.  

🌿 FORMULÁRIO

Quilombolas, povos indígenas, povos ciganos, povos de terreiro, carroceiros, raizeiras e benzedeiras compõem, hoje, parte viva da história e do presente de Belo Horizonte. São comunidades com trajetórias, territórios e desafios distintos entre si, que seguem construindo suas próprias formas de organização, memória e resistência na cidade — e cujo reconhecimento pelo poder público é condição para políticas públicas mais justas e culturalmente adequadas.

🏺ACESSE AQUI O GUIA DE REGULARIZAÇÃO E IMUNIDADE TRIBUTÁRIA DE TEMPLOS DE POVOS DE MATRIZ AFRICANA