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Quadro abstrato feito por usuários de saúde mental do Centro de Convivência Barreiro.
Foto: Divulgação PBH

Hospital Célio de Castro expõe pinturas do Barreiro

05/12/2017 | 15:50 | atualizado em 05/12/2017 | 16:00
“Eu sou mais feliz hoje. Meu horizonte se expandiu, conheço a história da minha saúde e consigo perceber a aflição do outro. Tudo isso graças ao trabalho do Centro de Convivência Barreiro”. O depoimento de Marcos Evando Martins dos Santos, de 38 anos, diagnosticado com esquizofrenia, resume o resultado do tratamento em liberdade da pessoa em sofrimento mental.

Marcos teve sua primeira crise em 2009, precisou ser internado, passou por um Centro de Referência em Saúde Mental (Cersam) e, desde 2010, é usuário do Centro de Convivência Barreiro, onde frequenta as oficinas de música, texto e artes cênicas. Ele está orgulhoso que o trabalho artístico desenvolvido por ele e outros usuários integrará a exposição “Meus dedos derrubam barreiras do mundo.” 

A mostra celebra os 21 anos do trabalho feito no Centro de Convivência Barreiro com usuários da rede de saúde mental. A inauguração da exposição será no dia 7 de dezembro, às 15h, no auditório do Hospital Metropolitano Dr. Célio de Castro – também conhecido como Hospital do Barreiro. “É muito positivo poder divulgar o nosso trabalho em uma exposição. Estamos quebrando estigmas”, afirma Marcos Evando.

A exposição ficará aberta ao público de 8 de dezembro a 31 de janeiro, das 10h às 17h, na área de convivência do Hospital do Barreiro. Estarão expostos 40 quadros e 21 painéis com pinturas, desenhos e bordados que foram construídos coletivamente. Algumas peças foram produzidas especialmente para a exposição e outras resgatam o trabalho que vem sendo desenvolvido nas últimas duas décadas. As temáticas são variadas, mas o pano de fundo de todas as obras é resultado da reflexão do fazer artístico e do que as mãos são capazes de produzir: da beleza da arte à transformação individual e coletiva.

Pai de Natalie, 14 anos, Pablo, 11, e Enzo, 8, Marcos Evando espera que os três filhos estejam presentes à abertura da exposição. Marcos é um dos autores do samba-enredo que embalou o desfile de 18 de maio deste ano no centro de BH, data que celebra o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. A composição “Não Me Calo Nem No Pranto” foi vencedora do Concurso de Samba-enredo, organizado pelo Fórum Mineiro de Saúde Mental em parceria com a escola de samba “Liberdade Ainda que TamTam”. A música estará no repertório do show de abertura da exposição com o grupo ExperiMental, do Centro de Convivência Barreiro. 

Para ele, a sociedade ainda enxerga a pessoa com transtorno mental como inválida e é importante quebrar esse preconceito. “Queremos ser vistos e desejamos que nosso trabalho seja conhecido. A arte, para nós, é um combustível de ânimo, ela é capaz de provocar sensações que já havíamos esquecido e fazer da obscuridade uma luz”, diz. 

Eliana Fernandes dos Anjos, 48, subirá ao palco com Marcos Evando e os demais integrantes do Grupo ExperiMental na abertura da exposição. Frequentadora do Centro de Convivência Barreiro há dez anos, ela participa de todas as oficinas oferecidas na unidade. “Depois que passei a frequentar o Centro de Convivência me encontrei. Venho aqui todo dia, de segunda a sexta, fiz amigos, aprendi a pintar, cantar e bordar”, relata. 

O Centro de Convivência Barreiro tem 1.290 usuários cadastrados e oferece oficinas de musicalização, literatura e poesia, cartonagem, artesanatos diversos e artesanatos com tecido, artes plásticas, artes cênicas, toyart, criação de objetos e customização. 

Marcos Alexandre Pereira, 30, é também usuário do Centro. Casado há 15 anos e pai de duas meninas, Rebeca, 15, e Alessandra, 12, ele veio de Várzea da Palma para Belo Horizonte cuidar da saúde. Em 2013, foi diagnosticado com bipolaridade e depressão e encaminhado para o Cersam Barreiro. Desde então, mudou-se com a família para a capital mineira. 

Depois de passar pelo Cersam, Marcos Alexandre foi encaminhado ao Centro de Convivência Barreiro. Hoje, ele é estoquista em um supermercado de BH, está inserido no mercado de trabalho e reconstruindo sua vida pessoal. Para isso, conta também com o apoio da esposa, Francislene Madeira, que trabalha como auxiliar administrativo. “É um amor bem bonito”, ele diz com sorriso no rosto.

O tratamento nos Centros de Referência em Saúde Mental busca a estabilização do quadro clínico do paciente em sofrimento mental com o suporte de uma equipe multiprofissional. “Há 21 anos os moradores do Barreiro em sofrimento mental têm oportunidade de vivenciar a inserção social de forma cuidadosa, cidadã e em liberdade”, afirma Marise Hilbert, gerente do Centro de Convivência Barreiro. 
 


A exposição

A mostra “Meus dedos derrubam barreiras do mundo” vai apresentar trabalhos atuais, produzidos especialmente para a exposição, e obras desenvolvidas desde 2010 pelos usuários do Centro de Convivência Barreiro. “Queremos contar a história desses 21 anos do Centro”, ressalta a monitora de artes plásticas e artes cênicas do espaço, Marilene Castanha.

A monitora diz que 21 anos é a idade que simboliza a maturidade. “Ao mesmo tempo em que marca o início de uma nova fase é a idade de fortalecer o que já conquistamos: o tratamento em liberdade, substitutivo do hospital psiquiátrico. Mas a batalha continua”, reforça. Marilene completa: “o nosso desejo é sempre o de levar para a comunidade o trabalho desenvolvido pelos usuários do Centro de Convivência Barreiro.” 

A oportunidade de dar visibilidade a essa história veio do convite feito pela diretora executiva do Hospital do Barreiro, Maria do Carmo, à gerência do Centro de Convivência Barreiro. “Essa exposição tem, para nós, dois significados: o primeiro diz respeito a uma das iniciativas de integração do hospital ao território onde está localizado, a despeito de ser um hospital de referência estadual. O segundo significado é o de reforçar o pioneirismo da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte na luta antimanicomial, com a criação de serviços substitutivos ao manicômio. Os Centros de Convivência são uma das formas de demonstração dessa possibilidade”, afirma. 
 

Dezembro também é o mês em que o Hospital do Barreiro será entregue 100% à população de Belo Horizonte. A abertura total dos leitos e serviços de saúde vai se concretizar no aniversário de 120 anos da cidade, em 12 de dezembro.
 



Nove centros


Os Centros de Convivência são serviços que compõem a rede de atendimento em Saúde Mental da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), substitutiva ao manicômio. O foco é a inserção social da pessoa em sofrimento mental, por meio da arte e da cultura, estimulando a convivência e a sociabilidade. 


Os usuários devem ser encaminhados por profissionais da saúde que sejam referência/responsáveis pelo tratamento nas Unidades Básicas de Saúde, Cersams, Consultórios de Rua, Unidade de Acolhimento - todos esses serviços do SUS -, mas também por profissionais da rede privada. O atendimento é para pessoas em sofrimento mental e usuários em uso prejudicial de álcool e outras drogas que apresentem dificuldades de inserção social. Belo Horizonte tem nove Centros de Convivência. 
 


Referência

O Hospital do Barreiro é um hospital geral de retaguarda para urgência e emergência, em especialidades clínicas, cirúrgicas e AVC. Com 460 leitos, sendo 80 de CTI, é referência para atendimento de alta complexidade na Rede SUS-BH e do Estado nas seguintes especialidades: clínica médica, ortopedia, cirurgia geral, cirurgia vascular, neurocirurgia, neurologia e urologia. O atendimento de urgência e emergência clínica e cirúrgica é referenciado e regulado pela Central de Internação de Belo Horizonte.

 



Serviço

Exposição ‘Meus dedos derrubam barreiras do mundo’

Abertura: 7 de dezembro, às 15h

Local: Auditório do Hospital Metropolitano Dr. Célio de Castro

Endereço: Rua José de Oliveira Gonçalves, 340, Bairro Milionários (Barreiro) 

Horário de visitação: 8 de dezembro a 31 de janeiro, das 10h às 17h.
 
 

 

05/12/2017. Mostra Saúde Centro de Convivência do Barreiro. Fotos: Divulgação/PBH