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Homem segura mudas de espécie ameaçada de extinção.
Foto: Suziane Fonseca/PBH

Fundação de Parques e Zoobotânica preserva faveiro-de-wilson

05/12/2017 | 16:14 | atualizado em 26/12/2017 | 10:05
Obstinação. Essa é a palavra que resume o envolvimento do engenheiro florestal e pesquisador Fernando Fernandes na conservação do Faveiro-de-Wilson (cientificamente conhecida como Dimorphandra wilsonii), espécie de árvore endêmica de Minas Gerais que está classificada, no Livro Vermelho da Flora do Brasil, como “criticamente em perigo” de extinção.

Fernandes é o coordenador do Plano de Ação Nacional (PAN) para Conservação do Faveiro-de-Wilson e do Programa de Conservação do Faveiro-de-Wilson, iniciativas do Jardim Botânico da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZB). Ele, que trabalha com o tema há 14 anos, e a equipe técnica do Jardim Botânico já colhem frutos de sua dedicação e cuidados com a espécie. 

Com quatro objetivos principais e 33 ações, que serão realizadas até 2020, o PAN Faveiro-de-Wilson se tornou oficial em 2015 por meio da portaria 101/2015 do Ministério do Meio Ambiente. Um dos seus objetivos é retirar a espécie da situação crítica em que se encontra.

O pesquisador explica que o plano prevê atividades que envolvem conscientização ambiental, políticas públicas, integração entre as instituições, pesquisas e preservação da espécie e do seu habitat. Como exemplo, o engenheiro destaca ações como monitoramento da espécie na natureza, a coleta de sementes e reintrodução da espécie nos municípios onde ela ocorre. “O programa é importante para a sobrevivência da espécie porque ela está em uma situação crítica especialmente por conta da perda de seu habitat, um problema comum para a extinção de espécies de um modo geral”, explicou. 
 
Entre os dias 28 e 30 de novembro, Fernando Fernandes e três técnicos da FPMZB estiveram nas cidades de Pequi e São José de Varginha, localizadas no Centro-oeste mineiro. Eles participaram da entrega de certificados e de materiais educativos para os envolvidos com o programa. Na ocasião, o grupo falou sobre o projeto com estudantes das escolas municipais das duas cidades. 

“O evento foi mais uma ação do PAN para reconhecer o trabalho dos colaboradores, como os fazendeiros que têm essa espécie nas suas propriedades e que, às vezes, nos ajudam a localizar exemplares, além de pessoas que são da zona rural e urbana e que têm nos ajudado a localizar novos exemplares da espécie. E isso é muito importante, haja vista que metade das árvores localizadas até hoje foram encontradas por esses colaboradores e a outra metade, por nós, pesquisadores”, salientou Fernandes.

Segundo o engenheiro, o resultado do trabalho pode ser mensurado pelo número de exemplares adultos encontrados na natureza. “Hoje, temos cerca de 400 exemplares catalogados. Isso porque aumentou o nosso conhecimento sobre a espécie. Algum tempo atrás desconhecíamos a existência desses exemplares. Agora podemos fazer a coleta de informações e o manejo corretamente”, observou. 

Com relação ao plantio, a meta para os próximos três anos é ter cerca de mil mudas reintroduzidas, o que significa mudas cultivadas no viveiro, levadas para o campo em áreas apropriadas, plantadas e monitoradas.“O Faveiro-de-Wilson é uma espécie de cultivo muito difícil e imprevisível, mas fizemos uma série de experimentos, inclusive durante a realização de dois trabalhos de bolsistas da Fapemig e, mais recentemente, durante um mestrado do engenheiro florestal, Márcio Marques, do IEF. Melhoramos o cultivo da espécie. Ainda assim é um processo trabalhoso, um pouco demorado, se compararmos com o cultivo de outras plantas”, disse.

Hoje, segundo o pesquisador, existem cerca de mil mudas no viveiro. Parte delas será introduzida no campo ainda neste ano. A maior parte deve ser plantada em 2018 na temporada das chuvas. “Graças às parcerias foi possível ampliar significativamente a proteção e o conhecimento sobre a espécie. Com o apoio da empresa de cimento Liz, foi possível estudar e melhorar o processo de produção de mudas. Também foi feito, regularmente, o monitoramento das árvores existentes na natureza e das mudas reintroduzidas como parte do programa. Além disso, foi possível localizar novas árvores da espécie na região”, contou Fernandes. 

Atualmente, são patrocinadores do programa a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e o fundo de parcerias para ecossistemas críticos. O fundo patrocina projetos especificamente para o bioma Cerrado, com foco na conservação e no desenvolvimento sustentável. Vale destacar que esse patrocínio é resultante da aprovação de dois projetos da Sociedade de Amigos da Zoobotânica, em parceria com a FPMZB, que foram submetidos aos editais públicos dessas instituições. 



 
Conheça a espécie

O Faveiro-de-Wilson é uma espécie endêmica da região central de Minas Gerais, que ocorre na transição do Cerrado para a Mata Atlântica, não existindo em nenhum outro lugar do mundo. Após 12 anos de busca, com a ajuda das comunidades, foram encontradas mais de 400 árvores adultas na natureza em algumas propriedades nos municípios de Paraopeba, Caetanópolis, Sete Lagoas, Matozinhos, Jaboticatubas, Lagoa Santa, Esmeraldas, Florestal, Juatuba, Mateus Leme, São José da Varginha, Fortuna de Minas, Pequi, Maravilhas, Inhaúmas, Nova Serrana, Onça do Pitangui, Pará de Minas e Perdigão.
 
A espécie chegou próximo à extinção devido à destruição das matas da região nos últimos 60 anos. A maioria das árvores encontradas estava isolada no meio de pastagens. As árvores podem ser encontradas também em capoeiras e matas, tanto nas baixadas quanto nas encostas e topos de morro. Por ser uma árvore rara e ameaçada de extinção, o Faveiro-de-Wilson não pode ser cortado e é legalmente protegido pelo Decreto Lei nº 43904/2004.

    O Jardim Botânico da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica fica na avenida Otacílio Negrão de Lima, 8.000. 
 
 

05/12/2017. Faveiro-de-wilson. Fotos: Suziane Fonseca/FPMZB