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O que é ser verdadeiramente inovador e incorporar inteligência ao turismo?

Monumento da Praça da Estação e o céu ao fundo
Foto: Neuma Horta
atualizado em 01/11/2018 | 19:25

 

Vencedores do Hackatur e case de sucesso colombiano nos inspiram a responder pergunta complexa, urgente e atual

 

Belo Horizonte conheceu, nesta semana, os vencedores do Hackatur - Desafio de Inovação no Turismo. Os selecionados foram os aplicativos Traveller, projeto da dupla Guilherme Frade da Silva e Alexandre Guimarães Nicolau; e AIRPP, da empresa JMM Tech.
 

O Traveller está em fase de desenvolvimento e tem como objetivo incentivar o envolvimento do turista com os atrativos da cidade, usando a gameficação e a interação do “live” com o virtual como chave. Já o AIRPP-BH pretende ser um guia geral para o passageiro que se encontra no aeroporto, com informações sobre localização, alterações de horários de voos, opções de transporte para Belo Horizonte e serviços como lojas, restaurantes, casas de câmbio e atrativos locais. Saiba mais.
 

Antes de chegar à etapa conclusiva, os cinco projetos finalistas, que propuseram soluções para o turismo de Belo Horizonte por meio dos desafios lançados pela Ampro e pela BH Airport (concessionária do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte), passaram por uma fase de ‘aceleração’ mediada pelo Design Thinkers Group, com acompanhamento da Belotur e do Sebrae-MG.
 

Mentorias, workshops e rodas de conversas com o mercado ajudaram a esclarecer dúvidas e aumentar as chances de os projetos se tornarem realidade. Uma experiência como essa que vivemos no Hackatur reúne algumas tendências e premissas que devem nortear a atuação turística dentro de uma metrópole como Belo Horizonte:

  • o conceito de destino turístico inteligente;

  • modernização e diversificação do turismo, criando novas experiências para os visitantes;

  • parceria entre instituições com alta capacidade de transformação para buscar soluções criativas;

  • abertura à inovação e ao empreendedorismo;

  • ampliação da conectividade entre o diverso ecossistema de startups belo-horizontinas e o mercado, de forma colaborativa.

 

O HACKATUR integra o programa fuTURISMO, que busca reunir práticas e experiências bem-sucedidas e inovadoras no turismo no cenário nacional e internacional. O programa significa, entre outras coisas, que o turismo em Belo Horizonte tem abertura para ser surpreendido positivamente por projetos inovadores, ou seja, ser “hackeado”, “reprogramado” por soluções criativas.

 

Mas o que é ser inovador e inteligente no setor turístico?
A inovação turística existe de forma independente das outras questões que afetam o cenário urbano, como a segurança, a saúde, a mobilidade?
Como as premissas acima se relacionam com a qualidade de vida da população e com o foco cada vez maior em destinos turísticos inteligentes?

Para nos inspirar na resposta a essas complexas perguntas, convidamos você a ler a entrevista realizada com Jorge Jaramillo, responsável pelo Plano de Ordenamento Territorial de Medellín, projeto que mudou a realidade da localidade colombiana e a transformou, dentre diversas conquistas, em “cidade mais inovadora do mundo - 2013” e fenômeno do turismo latino-americano. Convidado do “Seminário Cidades e Destinos Turísticos Inteligentes”, da PBH, Jaramillo apresentou a palestra “Como gerenciar cidades para a vida? Medellín, um projeto coletivo".
 

O palestrante trabalha em seu estúdio em Medellín como arquiteto e planejador desde 1987. Atuou como Diretor de Planejamento do município entre 2012 e 2015 e como Prefeito Interino em maio de 2013. Liderando o novo Plano de Uso e Ocupação do Solo (2014-2027), foi um dos responsáveis pela evolução urbana de Medellín, agraciada com inúmeras premiações. Para Jaramillo, uma cidade inteligente se constrói, especialmente, com igualdade, inclusão e sustentabilidade.

 


ENTREVISTA

  • Medellín foi considerada a cidade mais inovadora do mundo em 2013. Quando se pensa em inovação ou cidades inteligentes, o pensamento comum pode ser facilmente relacionado à tecnologia, por exemplo. No entanto, em Medellín, essa não foi a principal nem a única frente trabalhada. Quais foram essas frentes e de que forma elas ajudaram nessa transformação urbana?

 

Medellín foi reconhecida internacionalmente como a cidade mais inovadora em 2013 e, posteriormente, em 2016, ganhou o prêmio Lee Kuan Yew World City Prize 2016, justamente por representar como uma sociedade, de maneira coletiva, construiu acordos, estratégias, processos e projetos que, em um período relativamente curto de tempo, permitiram grandes evoluções.
 

No centro de tudo isso, estava o desafio em superar fraturas e brechas de uma urbanização explosiva, desigual e excludente pela qual passou essa sociedade e como, desde a instauração da democracia local em 1988, a cidade foi capaz de construir um processo democrático coletivo que a permitiu desenvolver processos de diálogo social, planejamento, desenvolvimento institucional, criação de políticas públicas, com continuidade e de forma coerente entre diversos governos sucessivos.
 

Medellín representa um bom exemplo, um exemplo inspirador, como dizia o jurado do prêmio Lee Kuan Yew, sobre como é possível, inclusive com tantas dificuldades, concordar e construir projetos a longo prazo, de maneira inteligente, de maneira participativa e avançar no caminho da igualdade, inclusão e sustentabilidade da sociedade. Por isso Medellín é conhecida, porque o inovador é criar estratégias compartilhadas com a sociedade.

 

  • Você é responsável pelo Plano de Ordenamento Territorial de Medellín (2014-2027). Poderia fazer uma análise entre o que foi planejado e o que foi realmente executado? O que ainda está por vir?

 

O plano de ordenamento territorial é uma proposta de longo prazo, que em parte, resgata planos anteriores que haviam na cidade e que retoma um modelo de desenvolvimento urbano que busca, reforço, a igualdade, inclusão e sustentabilidade. Uma forma inteligente de ocupar o território para aproveitar as condições, não somente naturais, como também de funções e infraestruturas. Esse plano está em suas primeiras fases de execução, sua implementação está avançada. Avançada, mas lenta. Porém, consistente. O plano deverá estar vigente durante três períodos de governo, segundo o planejamento.

 

  • Um dos grandes entraves para projetos de revitalização e ressignificação de cidades é a mudança constante de governo. Em Medellín, que mecanismos institucionais foram usados para manter a evolução da cidade ao longo dos anos?

 

Diante disso o mecanismo é a sociedade, a democracia, a participação e o controle cívico.

 

  • Um dos aspectos mais levados em consideração nesse processo pelo qual Medellín passou foi a mobilidade. Qual o motivo dessa escolha e o que foi feito nesse sentido na cidade?

 

A mobilidade é um elemento importante nas cidades contemporâneas na medida em que permite o direito à cidade e à acessibilidade para todos os habitantes e visitantes. Em processos de urbanização tradicionais na América Latina, onde existem grandes níveis de segregação sócio espacial, fragmentação e explosão no território, os sistemas de mobilidade se transformam, ou se convertem, em ferramentas não somente de transporte, como também de integração social.
 

Por isso, Medellín encontrou no metrô, no teleférico, nos novos sistemas complementares como o BRT, no VLT e nas bicicletas públicas, um sistema de caráter funcional, mas também de caráter social voltado à inclusão.

 

  • Como essa mudança pela qual Medellín passou tem refletido na atração de eventos, turismo e investimentos?

 

Um dos piores motivos da crise pela qual Medellín passou, no final dos anos 80 e durante a década de 90, está no fato de o município ter se convertido em uma espécie de cidade ilhada, em um “buraco negro” para o mundo. Nossa economia e nossa sociedade ficaram segregadas e, no plano estratégico do ano de 1997, um dos grandes acordos que fizemos com a sociedade foi: temos que reincorporar Medellín ao mundo.
 

Então, todos os esforços que realizamos no intuito de gerar mudanças estruturais em seu desenvolvimento almejavam uma agenda de integração, hoje muito exitosa. Prova disso é que hoje Medellín é reconhecida mundialmente. Um dos maiores indicadores de êxito, como disse antes, foi a cidade passar de uma espécie de “não lugar” para um destino muito atrativo, não somente para visitantes e turistas, como também para investidores internacionais.
 

De cidade ilhada passamos a receber grandes eventos internacionais, sendo os últimos e mais recentes os Jogos Sul-Americanos de 2010, o 7º Foro Urbano Mundial da ONU, em 2014 e a Assembleia da Organização Mundial de Turismo, em 2015.

 

  • Na sua opinião, algumas ideias colocadas em prática em Medellín poderiam funcionar em uma cidade como Belo Horizonte, por exemplo?

 

Creio que seja necessário, em qualquer cidade da América Latina, construir lideranças, compartilhando com diversos setores da sociedade, determinando uma visão de longo prazo, trabalhando conjuntamente grandes propósitos. Bons debates políticos são necessários e convenientes. Porém, a classe política deve respeitar que existem padrões, políticas e projetos da cidade que são compartilhados entre todos os movimentos, que não dependem da conjuntura, que são estruturais e que devem ser planejados a longo prazo e com responsabilidade.

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E aí? O que você achou dessa visão? Processos inovadores são movimentos amplos e não lineares, que muitas vezes ocorrem em situações de incerteza ou alto risco. Isso exige a combinação de diferentes conjuntos de conhecimentos, capazes de reduzir os potenciais problemas inerentes a essas mudanças.
 

Em poucas palavras, inovar pode ser abrir um novo mercado, criar um novo produto, modificar um produto existente, melhorar um método, encontrar uma nova fonte de recursos e criar uma nova forma de organização urbana, por exemplo.
 

Vivemos uma fase da história de intensa transformação, em que muitas questões surgem e demandam respostas completamente novas. Quem poderia afirmar com segurança, há poucos anos, que um dos maiores formadores de opinião sobre destinos e roteiros turísticos seria uma rede social de fotos? Ou que as pessoas pagariam para poder ter a experiência de trabalhar como voluntárias em outros países?
 

Está mais claro do que nunca que processos de inovação permanente devem ser incorporados verdadeiramente às práticas turísticas, tanto do poder público quando da iniciativa privada.