Pular para o conteúdo principal

Willian, migrante chinês, no centro da foto, brinca com peças coloridas junto a outras duas crianças: uma meniba vestida com o uniforme da Emei e a outra com camiseta branca e calça jeans.
Claudio Lacerda/ Smed

Matrículas de alunos migrantes avançam na rede municipal com o português como língua de acolhimento

criado em - atualizado em

William tem apenas 4 anos, mas já traduz em sua trajetória o impacto das políticas de acolhimento da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte. Filho de pais chineses, nasceu no Brasil e cresceu ouvindo mandarim em casa. Ao chegar à Escola Municipal de Ensino Infantil (Emei) Vila Estrela, no Bairro Santo Antônio, região Centro-Sul, encontrou barreiras para compreender e se comunicar em português, o que dificultava sua aprendizagem e a convivência com colegas e professores. Durante três anos, William recebeu acompanhamento constante da equipe escolar e apoio da Secretaria Municipal de Educação (Smed). Agora, começa a se expressar em português, descobrindo novas formas de brincar, aprender e se conectar.

 

O garoto filho de chineses é um dos 858 estudantes migrantes matriculados, sendo 737 na Rede Municipal e 121 na Rede Parceira de Educação Infantil. Eles representam 37 nacionalidades, vindos de países como Venezuela, Cuba, Síria, Japão, Angola, México, Alemanha e muitos outros.

 

O crescimento é expressivo. Desde o início do acompanhamento sistemático, em 2024, houve um aumento superior a 500% nas matrículas de estudantes migrantes. A partir de 2020, o movimento se intensificou, com destaque para a chegada de crianças e jovens da Venezuela, Cuba, Bolívia e Síria.

 

Atualmente, 205 escolas recebem alunos de diferentes culturas e histórias. Cada matrícula é mais que um número: é a chegada de uma criança ou adolescente que traz consigo experiências, saberes e sonhos. A presença desses estudantes fortalece a comunidade escolar e aproxima ainda mais a escola das famílias.

 

Segundo a professora Viviane Maia, a criação do Núcleo de Políticas Educacionais para Estudantes em Situação de Migração (Nupem) possibilitou o desenvolvimento de práticas voltadas à valorização dos estudantes migrantes. 

 

“As escolas, pouco a pouco, têm se estruturado para acolher melhor os mais de 800 alunos de 37 nacionalidades diferentes, matriculados na rede municipal e em creches parceiras. As próprias equipes da Smed das áreas pedagógicas às administrativas passaram a planejar ações específicas voltadas a esse público para assegurar plenamente os direitos desses 'cidadãos do mundo', como são reconhecidos pela Lei de Migração nº 13.445, de 24 de maio de 2017”, afirma.

 

Virada de chave

 

Os pais de William, Lee Weixi Li e Xu, chegaram ao Brasil há duas décadas. Vieram para aprender a língua e conhecer os costumes. Acreditavam que o comércio entre Brasil e China cresceria ao longo dos anos e que, dominando o português, o futuro estaria garantido. O plano inicial era estudar e voltar. Mas o nascimento dos filhos mudou o rumo da família. O mais velho, hoje com 17 anos, também estudou na Emei Vila Estrela. A experiência fez o casal escolher a mesma escola para William, que por seis meses até chegou a estudar em uma escola particular, mas não se adaptou.

 

Segundo a diretora da Emei, Juliana Sá Brandão, a virada de chave no processo de aprendizagem do William veio com a chegada dos profissionais do Núcleo de Políticas Educacionais para Estudantes em Situação de Migração (Nupem). “Os primeiros contatos foram de muita estranheza tanto para ele quanto para nós. Tudo era difícil. Até que os profissionais do Nupem começaram a trabalhar com ele. Além da barreira da língua, no início William também era muito resistente à alimentação, diferente de hoje. Agora ele já come de tudo”, conta. 

 

O pai concorda e diz que em casa o filho é chamado de “Feijãozinho” por ser o único da família a gostar de feijão. “Ele está adaptado e nunca reclama quando chega a hora de ir para a escola”, comenta o pai, destacando que William já sabe que se em casa a família se comunica em mandarim, com os brasileiros ele precisa falar em português.

 

Outra vantagem apontada pelo pai é que, diferente da China, na Emei as crianças aprendem brincando. “No meu país o foco é apenas na aprendizagem e muito do que é ensinado não se aplica no dia a dia”.

 

Juliana concorda e diz que o menino se diverte aprendendo, e que nesse processo os coleguinhas também ajudam. “Eles brincam muito e estão sempre repetindo as palavras para que William aprenda. A gente percebe que ele é muito feliz”, diz a mãe, para quem Willian repete a trajetória do filho mais velho. “Quando Tianyi Li vem trazer o William não esconde o carinho que tem pela Emei”. O pai, segundo a diretora, também é muito presente e participativo, o que ajuda na evolução do filho.

 

Português como língua de acolhimento

 

A professora Nícia Souza Carvalho, integrante do Nupem, orienta escolas, elabora materiais e acompanha estagiários de Português como Língua de Acolhimento (PLAc). Ela conta que uma das atividades com William foi um passeio ao quintal da Emei, onde há nove árvores frutíferas. “Antes de começarmos com as frutas, trabalhamos formas geométricas, que era o conteúdo da sala. Fizemos atividades lúdicas com a turma e depois tive uma aula só com o William”. Nesse momento individualizado, William começou a repetir palavras como quadrado, triângulo, círculo, retângulo, além de cores.

 

“A primeira que ele identificou foi azul. Quando apareceu um círculo azul, ele pegou o lápis de cor azul e disse ‘azul’, me mostrando o lápis. Em seguida, fez o mesmo com as outras cores. Depois vieram as formas geométricas e, em seguida, as frutas”, lembra Nícia.

 

Ela conta que, por ser a primeira vez, William ficou agitado e quis voltar para a turma. “Ele se levantou e foi em direção à porta. Eu falei em português: ‘Você gostaria de aprender português para poder conversar com seus colegas?’. Ele fez que sim com a cabeça e voltou”.

 

Para Nícia, esse foi o momento em que percebeu que William já entendia e conseguia falar algumas palavras. Até então, permanecia em silêncio e só se comunicava por gestos. Depois disso, passou a falar um pouco mais. O avanço surpreendeu a equipe. “As professoras, coordenação e direção ficaram surpresas quando eu disse que ele tinha repetido as palavras e usado as cores no momento certo”, completa.

 

Todas essas atividades fazem parte de uma dinâmica criada para estimular a aprendizagem do português como língua de acolhimento. “Criamos um material bilíngue, cartazes e jogos, que pode ser usado individualmente ou com toda a turma”, explica a técnica. Além desse atendimento semanal e individualizado, os profissionais do Nupem também desenvolvem atividades coletivas. São propostas que trazem referências ao país de origem dos alunos, como música, dança, costumes e alimentação.

 

Também para garantir o acolhimento, a Smed oferece orientações específicas para matrícula, apoio técnico às escolas e materiais pedagógicos que favorecem o aprendizado, como no caso da Emei Vila Estrela que criaram peças em inglês, mandarim e português, para o William, e em espanhol, para um aluno argentino.

 

Há ainda suporte linguístico, essencial para que os alunos se sintam incluídos e possam avançar nos estudos. Entre as ações estão as orientações às equipes pedagógicas por meio de dois guias para acolhimento aos estudantes migrantes nas escolas e de Acolhimento aos Estudantes Warao nas Escolas, o ensino de Português como Língua de Acolhimento e uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) para famílias indígenas Warao.