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Três violinistas tocam, sentados em cadeiras. São quatro cadeiras e em uma delas
Foto: Ricardo Laf

BH em Pauta: Amigos da Cultura

02/06/2017 | 16:15 | atualizado em 14/06/2017 | 14:39

Moradora do bairro Minas Brasil, Aline Vianna fez quatro meses de aulas de piano quando tinha nove anos, mas acabou interrompendo o processo pelas dificuldades em manter o aprendizado. Na educação formal cumpriu o ensino médio, e acabou se distanciando do universo musical durante anos. “Nunca mais tive nenhum contato. Até um dia que um primo, que tem 13 anos, começou a fazer aulas de violino e gostei de vê-lo tocar”, relembra.

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Aline Viana, participante do projeto

 

Durante um tempo, a música esteve presente na vida de Aline, agora com 21 anos, de forma transversal a partir do trabalho: “Eu gosto muito de música pop. Trabalho como vendedora em uma loja voltada para produtos do rock, como roupas e instrumentos”. No entanto, foi a experiência do primo que a estimulou a dar continuidade à trajetória interrompida. “Agora, voltei a me dedicar à música, pois estou cursando duas oficinas, uma de piano e outra de violino”, afirma, sem esconder a empolgação. “Mas só consegui retomar porque as oficinas são gratuitas e acontecem pertinho de casa”, completa.

Felipe Costa Araújo é morador do Alípio de Melo. Com 22 anos, é professor de Matemática. O gosto pela música veio da família. “Minha formação musical veio do meu avô, um apreciador da música sertaneja. Isso me influenciou bastante, e desde os 12 anos, toco violão”, relembra. Agora, Felipe ampliou seu universo musical como aluno da oficina de piano, um instrumento que sempre gostou, mas achava inacessível. “Jamais imaginei que teria a oportunidade de participar de um curso gratuito de piano, e ainda mais com esse nível de excelência”, afirma. 

Felipe ressalta a importância da gratuidade da oficina, já que ele mesmo ministrou oficina de violão também sem custos para alunos. “Só dessa forma é possível. No caso do piano ainda mais, porque a hora aula do instrumento é muito cara. É realmente uma oportunidade única”, explica.

Aline e Felipe são alunos do Amigos da Cultura, projeto de oficinas do Espaço Cênico Yoshifumi Yagi/Teatro Raul Belém Machado, um exemplo claro de que a união de forças resulta em ações que podem potencializar, substancialmente, uma comunidade. Afinal, foi a partir da parceria do equipamento cultural – mantido pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Fundação Municipal de Cultura – com moradores, lideranças comunitárias, jornal regional e associações como a Associação Multimusical do Teatro Raul Belém Machado (AMMUL) e a Sociedade dos Amigos dos Espaços Cênicos de BH (SOAMA), além de artistas do bairro Alípio de Melo e região, que todo um universo cultural foi descortinado para uma série de crianças, jovens, adultos e idosos.  

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Segundo Robson Welington de Souza, gestor do Espaço, o objetivo foi otimizar a ocupação do Teatro Raul Belém Machado nos primeiros dias da semana, segunda a quinta, já que os espetáculos cumprem agenda nos fins de semana, além de oferecer uma programação de formação robusta. “A ideia foi oferecer à comunidade do entorno oficinas que de um lado contemplassem cultura, informação, lazer e fruição, e por outro criasse na comunidade o sentimento de pertencimento ao local.” 

Dessa forma, o Amigos da Cultura oferece 13 modalidades de oficinas gratuitas: violino, piano, viola, dança livre, hata yoga, técnica vocal, kobudô, tricoterapia, liang gong, teatro juvenil, dança cigana, coral encanto e capoeira. 

O projeto está movimentando não só a vida dos alunos, mas também dos professores, que trabalham de forma voluntária. Graduado em piano pela Bituca – Universidade de Música Popular e com trajetória em bandas de música brasileira, latina e portuguesa desde 1992, o professor Estefânio Alvares deixa claro sua satisfação com a oficina. 

“Espero sinceramente ser um agente transformador dentro do coração dessas pessoas. Que cada semente plantada possa se espalhar como um sinal de que a música tem seu espaço e lugar em nosso coração, e transforme o meio em que vivemos”, ressalta. “O que posso dizer é que está sendo extremamente gratificante e de grande significado para minha vida e de nossos alunos”, destaca ele, sobre a experiência. 

O professor também saúda a ação do Espaço Cênico Yoshifumi Yagi/Teatro Raul Belém Machado, erguido pelo Orçamento Participativo: “Por ser um teatro que surgiu da vontade da comunidade, acho justo que os moradores tenham esta oportunidade de crescimento e aprendizado dentro do teatro, local onde eles têm à disposição um piano para estudo, o que às vezes se torna de difícil obtenção para muitos alunos.”

Amur Gomes, maestro de duas orquestras e professor da oficina de violino, também ressalta a relevância da iniciativa: “Esta ação é importantíssima para o enriquecimento da nossa cidade, pois música é cultura, especialmente música de qualidade com um bom profissional à frente”. Ele também ressalta o local de realização das oficinas.  “A experiência de dar aula em um teatro está sendo muito positiva pelo prazer de dar oportunidade para as pessoas terem acesso de forma descentralizada, atendendo bairros”. “E também podendo levar um pouco de alegria através da música, que é uma das artes mais belas, para a comunidade”, finaliza.

 

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