31 March 2026 -
Cinquenta e três profissionais da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) voltaram às salas de aula por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Foram criadas quatro turmas para o atendimento dos trabalhadores e duas outras estão em fase de abertura. Grande parte dos alunos já não exerce mais a atividade de gari, função que desempenharam durante a maior parte da vida profissional. Em razão principalmente da idade, foram readaptados para outras tarefas na SLU.
A iniciativa tem como objetivo a alfabetização e o acesso ao diploma do ensino fundamental, que contempla do primeiro ao nono ano. A qualificação vai permitir, em alguns casos, ganhos financeiros por meio da progressão profissional. O funcionário tem a possibilidade de estudar durante o horário de trabalho, recebe lanche e transporte de sua unidade até o local do curso. A EJA pode durar de seis meses a quatro anos, conforme o nível de formação do estudante.
Ampliação
O grupo da regional Barreiro é formado por 15 servidores. Na regional Centro-Sul são 23 alunos, distribuídos entre os turnos da manhã e da tarde, além da turma criada na sede da autarquia, que conta com 15 estudantes. A Prefeitura de Belo Horizonte tem a previsão de criar mais duas turmas nas regiões Oeste e Pampulha, reforçando o compromisso de proporcionar crescimento pessoal e capacitação aos servidores.
Pedagogo e graduado em Letras, o professor Vilmar Martins da Silva é um dos profissionais da Secretaria Municipal de Educação que lecionam nessa etapa da EJA na SLU. Como forma de incentivar seus alunos, ele faz questão de enfatizar que para aprender não existe idade certa. Experiente no ensino de adultos, o educador avalia, com senso de humor, que a matemática continua sendo o maior desafio enfrentado pela maioria dos estudantes. “É o terror de todo aluno. O projeto é bem interessante e percebo que estão todos muito interessados”, disse.
Recomeço
Há 47 anos na SLU, Raimundo Coelho da Silva conta que possuía dificuldade de ler e escrever, mas com as diretrizes e o empenho do professor, a situação está se tornando mais fácil. “Não tinha muito o hábito de ler livros, mas percebo que o estudo abre a mente da gente; por isso, hoje, já consigo fazer uma leitura observando a pontuação de forma correta”, contou.
Nascido em Araçuaí, município localizado no Vale do Jequitinhonha, no Nordeste de Minas Gerais, José Geraldo Moreira, gari de coleta há 30 anos, é categórico ao afirmar que o saber nunca é demais. “Se não fosse essa oportunidade, com certeza seria impossível seguir nos estudos, principalmente por conta do horário de trabalho. Até chegar em casa, eu não teria tempo algum", destacou. José Geraldo explica que parou de frequentar a escola na terceira série do antigo ensino primário. “Fiquei órfão de pai e mãe ainda muito pequeno e a vida na roça não era fácil”, lembrou.
Mauricio Luiz Teixeira, há 46 anos trabalhando na SLU, reforça as vantagens de as aulas serem ministradas no período da tarde e relembra: “há muitos anos, foi oferecido um projeto semelhante de estudos na SLU; como a aula começava por volta das 18h, não dava tempo, pois ainda estávamos na rua, realizando a coleta.”
O auxiliar de apoio operacional Mauro Libano de Paulo, há 31 anos na SLU, parou de estudar no segundo ano primário. “Estou tendo uma nova chance agora, depois de muitos anos, o que é muito bom. Tinha dificuldade com a leitura da Bíblia, principalmente na igreja. Agora planejo, de acordo com meu desenvolvimento aqui, cursar e concluir o segundo grau”, disse.
Há 40 anos na SLU, atualmente na Gerência Regional de Limpeza Urbana Leste, Luiz Fernando Menezes, pai de seis filhos, possui 14 netos e três bisnetos. “Eu parei de estudar muito novo, da sexta para a sétima série; nesse período, a escola mudou demais e a gente acaba esquecendo muita coisa.” O trabalhador disse que a meta dele é “a graduação em Teologia e Administração após a conclusão da EJA.”.
Mesmo com dificuldades, especialmente em matemática, a gari Regina Rocha de Souza mantém firme o sonho de conquistar o diploma e provar que é capaz de evoluir. Há 40 anos na SLU, ela valoriza o estudo como um caminho de superação e realização pessoal, apesar dos momentos de frustração. “Eu quero pegar o diploma e dizer a mim mesma que eu fiz, que aprendi, e poder ajudar também os meus netos”.
EJA
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é uma modalidade de ensino no Brasil destinada a pessoas que não concluíram o ensino fundamental ou médio na idade adequada. Ela permite retomar os estudos, concluir o aprendizado em menos tempo e obter certificação oficial para melhorar oportunidades no mercado de trabalho.
Com esse projeto, a PBH não apenas pretende combater o analfabetismo, mas também promover dignidade e novas perspectivas de futuro para aqueles que se dedicaram por tanto tempo a cuidar da cidade.
