8 July 2026 -
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) em Belo Horizonte segue como uma porta aberta para quem deseja retomar os estudos e transformar a própria história. Mais do que garantir o direito constitucional à educação, a modalidade se consolidou como uma política pública que promove acolhimento, cidadania e inclusão.
Atualmente são 6.517 estudantes distribuídos em 94 escolas e 379 turmas, além de 68 espaços externos. A maioria é formada por pessoas negras, com idade média de 43 anos, mostrando a diversidade e a força de jovens, adultos e idosos que encontram na EJA um caminho de emancipação. Entre os programas em vigor estão a EJA Esperançar, voltado para jovens de 15 a 17 anos, a EJA Fundamental, para diferentes faixas etárias, e a EJA Ensino Médio, oferecido pela Escola Municipal Caio Líbano Soares.
Com políticas públicas que dão sustentação, da Lei de Diretrizes e Bases ao Fundeb, passando pelo Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e programas locais como o Meio Passe Estudantil e o Qualifica EJA, a EJA em BH se destaca pela flexibilidade: matrículas abertas o ano inteiro, turmas em espaços não escolares como a rodoviária e hospitais, e um currículo que conecta aprendizado às demandas do trabalho e da vida cotidiana.
“A EJA de Belo Horizonte alia inovação pedagógica e compromisso social. Nosso desafio é ampliar ainda mais o acesso e garantir que cada estudante encontre na escola um espaço de dignidade e transformação”, afirma a gerente da EJA BH, Nesir Freitas. Segundo ela, o jeito de organizar a EJA em Belo Horizonte é bem diferente do modelo tradicional baseado em séries e etapas.
Em Belo Horizonte, os estudantes percorrem um ciclo único de aprendizagem, construído a partir de suas experiências, saberes e trajetórias de vida. Inspirada no educador Paulo Freire, a proposta incentiva a leitura crítica da realidade e compreende a educação como instrumento de transformação social. Essa concepção se traduz em iniciativas desenvolvidas dentro e fora das escolas. Entre elas estão a turma da EJA na Rodoviária de Belo Horizonte, o atendimento a estudantes em tratamento de hemodiálise e ações voltadas ao acolhimento de pessoas em sofrimento mental que estavam afastadas do sistema de ensino.
Educação que chega onde o estudante está
Levar a escola para além dos muros é uma das marcas da EJA em Belo Horizonte. As turmas em espaços parceiros ampliam o acesso e favorecem a permanência dos estudantes, especialmente daqueles que enfrentam dificuldades para frequentar uma
unidade escolar tradicional. "Esse atendimento em diferentes locais, por meio de parcerias intersetoriais públicas e privadas, contribui para que trabalhadores, idosos e outros públicos consigam permanecer na escola", destaca Nesir Freitas.
Um desses espaços funciona no Centro Social da Vila Marçola, vinculado à Escola Municipal Senador Levindo Coelho. Ali, estudantes entre 17 e 80 anos compartilham a mesma sala de aula. A professora Rita de Cássia Santos Pires, que tem uma turma de 25 alunos, aposta no acolhimento para enfrentar a evasão.
“A primeira coisa é escutar. Saber qual é a situação de vida, quais as dificuldades que ele tem em aprender”, afirma. A turma reúne adolescentes fora da faixa escolar e adultos de até 84 anos. “É preciso flexibilidade. Se o aluno trabalha, pode chegar mais tarde ou sair mais cedo. O importante é não perder o vínculo”, diz a professora.
Uma das alunas da professora Rita de Cássia é Sebastiana das Dores Silva, a Taninha, de 71 anos. “Sempre tive vontade de estudar. Quero continuar. Agora que estou aposentada, consigo conciliar a rotina de dona de casa com os estudos”, diz animada. Mas nem sempre foi assim. Na infância, morava na zona rural de Alpercata. Caminhava mais de uma hora até a escola e muitas vezes não fazia provas, pois coincidiam com a época da colheita dos patrões de seus pais. “Eu, apesar da idade, precisava ajudar.” Aos 15 anos, mudou-se para Belo Horizonte. Trabalhou como empregada doméstica e não conseguiu retomar os estudos. Só com a EJA encontrou a chance de voltar.
Outra aluna é Emanoelle de Oliveira Lima, de 17 anos. Em busca de oportunidades, sua mãe, Jodita Maria de Oliveira, deixou Ribeirão das Neves e veio para Belo Horizonte. A escola escolhida para concluir o 9º ano foi a Senador Levindo Coelho. Embora tenha gostado da escola, Emanoelle não se adaptou ao turno da noite e encontrou seu espaço na turma da EJA à tarde. “Esse horário permite que eu estude e trabalhe. Sou trancista e gosto muito do que faço. Depois que concluir todo o ciclo quero continuar a estudar e a trabalhar. Sonho em ser uma ótima trancista”, conta orgulhosa da profissão que escolheu.
Permanência e o engajamento
Para garantir a permanência e o engajamento dos estudantes da EJA, cada escola conta com uma Referência Pedagógica Regional, que junto às equipes escolares realiza o monitoramento da frequência por meio de planilhas específicas. Quando há ausência recorrente, é feito um mapeamento socioeducativo e contato direto com o estudante (telefone, mensagens ou visitas), buscando alternativas para o retorno imediato.
Foi assim com o motorista Daniel Salomão Calixto, de 77 anos, aluno da Escola Municipal Caio Líbano Soares, instituição dedicada exclusivamente ao Ensino Fundamental na modalidade EJA. Ele já podia estar na fase da certificação, mas dois acidentes o afastaram da sala de aula por mais de quatro meses. Estimulado por professores e graças à busca ativa, ele está de volta.
Daniel perdeu o pai aos sete anos e a mãe aos 13. Para sustentar a casa e cuidar de três irmãos, aos nove já trabalhava como engraxate e carregador no Mercado Central. Viveu um período como pessoa em situação de rua até que, aos 15, conseguiu um emprego em uma empresa de ônibus. Foi nessa época que a educação deixou de ser uma prioridade. O patrão exigiu que ele escolhesse entre o emprego e a escola. Sem saída, abandonou os estudos e com o pouco que sabia teve outros ofícios, entre eles, servente de pedreiro, lapidador e relojeiro.
“Aprendi a assinar o meu nome aos 15 anos”, conta sobre essa primeira conquista. Agora, mais de seis décadas depois desse feito, Daniel visualiza novos horizontes. “Se tenho planos? Tenho, sim. Quero viver com dignidade. Para isso, estou aprendendo a ler, a escrever e também a matemática. Fazer contas é muito importante. Tudo isso faz muita diferença na vida da gente”.
Além da busca ativa outro diferencial para reduzir a evasão é a capacitação profissional, oferecida em parceria com órgãos públicos, OSCs e instituições privadas. Esses conteúdos são integrados ao currículo e abordam temas como empreendedorismo, mercado de trabalho, tecnologia, cidadania e arte, ampliando o engajamento e a utilidade prática do aprendizado.
|As formações docentes priorizam práticas humanizadas que valorizam a bagagem de vida dos estudantes, evitando a infantilização. O currículo parte das experiências pessoais e profissionais dos alunos, e as avaliações são processuais, flexíveis e formativas, com foco na recomposição contínua das aprendizagens essenciais e na valorização dos avanços individuais.