23 June 2026 -
Belo Horizonte vem incorporando a adaptação climática ao planejamento da cidade com instrumentos urbanísticos, ampliação da infraestrutura verde e soluções baseadas na natureza. São iniciativas que vão das Conexões Verdes previstas no Plano Diretor aos 67 jardins de chuva já implantados, passando pela criação de refúgios climáticos, pela adoção de telhados verdes e pela recuperação ambiental de áreas estratégicas, a capital estrutura uma agenda para aumentar a resiliência diante dos eventos de calor extremo. A estratégia é complementada por ações de fiscalização e de educação urbanística e ambiental que ajudam a fortalecer a preservação e o cuidado com os espaços urbanos.
"O calor extremo é hoje uma das manifestações mais visíveis da emergência climática global. Por isso, a adaptação da cidade passou a ocupar posição estratégica nas políticas urbanas de Belo Horizonte. Estamos falando de um desafio que exige planejamento de longo prazo, integração entre diferentes áreas da administração e ações concretas capazes de tornar a cidade mais resiliente para as próximas décadas”, pontua Leonardo Castro, secretário municipal de Política Urbana.
O secretário explica que, embora a adesão de Belo Horizonte à iniciativa internacional Beat the Heat, coordenada pela Organização das Nações Unidas (ONU), seja recente, a preparação da cidade para enfrentar os impactos das mudanças climáticas vem sendo construída há anos. Por meio de políticas públicas integradas, a Prefeitura tem apostado em instrumentos de planejamento urbano, preservação ambiental, fiscalização e educação ambiental para tornar a cidade mais resiliente diante do aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos.
De acordo com Castro, a construção de uma cidade mais preparada para os desafios climáticos envolve a atuação articulada de diferentes áreas da Prefeitura de Belo Horizonte. Nesse contexto, ganham destaque as iniciativas desenvolvidas pelo Planejamento Urbano, pela Fiscalização e pela Educação Ambiental, que contribuem para a adaptação da cidade aos episódios de calor extremo por meio de ações que combinam planejamento territorial, infraestrutura verde, monitoramento e conscientização da população.
- Corredores ecológicos
Aprovado em 2019, o Plano Diretor de Belo Horizonte tornou-se uma referência ao incorporar um capítulo dedicado à Nova Agenda Urbana e alinhar o desenvolvimento da cidade aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Entre seus princípios está a promoção do desenvolvimento sustentável sob a perspectiva do enfrentamento das mudanças climáticas.
Na prática, isso se traduz em instrumentos que contribuem para uma cidade mais preparada para os desafios ambientais. Entre eles estão os Zoneamentos de Preservação Ambiental, as Conexões Verdes e as Conexões de Fundo de Vale, que ampliam a presença da vegetação no território, fortalecem corredores ecológicos e qualificam os espaços urbanos.
O Plano Diretor também mantém a exigência da Taxa de Permeabilidade nos lotes, garantindo áreas vegetadas e arborizadas capazes de desempenhar funções importantes para o equilíbrio do microclima e para a absorção das águas de chuva. Essas medidas demonstram como o planejamento urbano pode incorporar a adaptação climática como parte da construção da cidade.
Além dos benefícios ambientais, esses instrumentos contribuem para a melhoria do conforto térmico e da qualidade dos espaços públicos, reduzindo a exposição da população aos efeitos das altas temperaturas.
- Telhados verdes
Além dos instrumentos urbanísticos, Belo Horizonte vem estimulando a adoção de soluções baseadas na natureza capazes de contribuir para a adaptação climática e para uma gestão mais eficiente das águas pluviais.
Entre essas iniciativas estão os telhados verdes, que vão além da função paisagística e são utilizados como dispositivos integrados à drenagem urbana. Na capital, essa tecnologia atua de forma complementar à Taxa de Permeabilidade e aos sistemas de captação de água exigidos nos empreendimentos, contribuindo para reduzir o volume de água direcionado à rede pública durante eventos de chuva intensa.
Entre 2020 e 2025, foram implantados 3.129,88 metros quadrados de telhados verdes em Belo Horizonte, concentrados principalmente na região Centro-Sul. A solução também representa uma alternativa técnica para empreendedores, uma vez que pode reduzir a necessidade de estruturas convencionais de retenção de água previstas nos projetos.
- Refúgios climáticos
O Programa Perto de Casa representa outra frente importante dessa estratégia. A iniciativa busca fortalecer centralidades nos bairros e aproximar moradia, comércio, serviços e equipamentos públicos, promovendo uma distribuição mais equilibrada das funções urbanas.
Além de qualificar os espaços públicos, a proposta incorpora elementos voltados à sustentabilidade e ao conforto climático, como ampliação da arborização, incremento da permeabilidade do solo, implantação de rotas cicláveis e criação dos refúgios climáticos, estruturas projetadas para oferecer sombra, descanso e hidratação à população durante períodos de temperaturas elevadas.
Ao estimular bairros mais completos e conectados, o programa também contribui para reduzir deslocamentos desnecessários, diminuir emissões associadas à mobilidade urbana e promover uma ocupação urbana mais equilibrada, alinhada aos princípios da sustentabilidade e da qualidade de vida.
Nove centralidades — uma em cada regional — estão em processo de estruturação de intervenções integradas, em diferentes etapas:
• Waldomiro Lobo (Norte) e Bairro São Paulo (Nordeste): já têm planos de ação e projetos em elaboração;
• Itaité (Leste), Érico Veríssimo (Venda Nova) e Abílio Machado (Pampulha): com planos de ação em desenvolvimento;
• Úrsula Paulino (Oeste), Padre Eustáquio (Noroeste), Praça do Cardoso (Centro-Sul) e Estação Diamante (Barreiro): em fase de estruturação.
O programa também está presente em outras centralidades com diferentes tipos de ações, como Floresta (obra na Rua Sapucaí já concluída), Bartolomeu de Gusmão (obra concluída), Comanches (obras em andamento), Humaitá e São João da Serra (projetos em desenvolvimento). A iniciativa é da Prefeitura de Belo Horizonte e conta com o apoio do Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (Unops), organismo da ONU especializado em infraestrutura.
- Programa Veredas
A agenda de adaptação climática também avança por meio do Programa Veredas, que institui o Planejamento Urbano Sensível à Água no âmbito das sub-bacias hidrográficas da cidade. A iniciativa utiliza Soluções Baseadas na Natureza para integrar drenagem urbana, recuperação ambiental e qualificação dos espaços públicos.
O Programa Veredas tem como objetivo reduzir alagamentos, amenizar o calor e recuperar áreas verdes por meio de soluções baseadas na natureza. O programa tem a bacia do Córrego do Capão como área piloto. Essa foi a primeira área escolhida para a implantação da iniciativa, que será estendida para outras sub-bacias de Belo Horizonte.
Ao complementar intervenções convencionais com infraestruturas verde-azuis, o programa busca recuperar serviços ecossistêmicos, ampliar a arborização e fortalecer a resiliência urbana em áreas estratégicas do município. A proposta também contribui para a naturalização dos espaços públicos e para a construção de ambientes urbanos mais preparados para enfrentar os impactos das mudanças climáticas, especialmente em territórios de maior vulnerabilidade social.
O Programa Veredas prevê a implantação de soluções como corredores ecológicos, parques ciliares, ciclovias, jardins de chuva e sistemas de captação de águas pluviais em escolas e unidades de saúde. Também inclui a transformação de pátios escolares em áreas verdes e a criação de rotas mais arborizadas e confortáveis para pedestres e ciclistas. Com o apoio da Sociedade Alemã para Cooperação Internacional (GIZ) e da rede C40, por meio do programa Facilidade de Financiamento para Cidades (CFF), o Programa Veredas consolidou-se como uma iniciativa de relevância internacional.
Essa mesma lógica orienta a implantação dos jardins de chuva, que se tornaram uma das iniciativas mais visíveis da infraestrutura verde da capital. Belo Horizonte já conta com 67 dispositivos distribuídos pelo território, contribuindo para a drenagem urbana, a qualificação dos espaços públicos e o fortalecimento das soluções baseadas na natureza.
Para ampliar essa política, a Prefeitura criou o programa Adote um Jardim de Chuva, que oferece incentivo tributário para cidadãos e empresas que assumam a implantação e a manutenção desses dispositivos em áreas públicas. A iniciativa prevê desconto de 10% no valor do IPTU, limitado a R$ 2 mil, para quem aderir à medida. A ação alia participação social, qualificação urbana e sustentabilidade ambiental.
- Fiscalização e educação urbanística ambiental
As ações de fiscalização e de educação urbanística ambiental atuam de forma complementar às políticas de planejamento urbano, contribuindo para a conservação dos espaços urbanos, a prevenção de riscos ambientais e a conscientização da população.
Nesse contexto, iniciativas como o Projeto Lote Limpo, o Programa Fiscalizar e Educar e o Programa Operox reforçam a atuação municipal por meio do monitoramento de áreas urbanas, da mobilização social e do controle de fontes de poluição atmosférica.
Desde 2018, cerca de 17 mil lotes vagos passaram a ser monitorados de forma contínua pela Prefeitura. O trabalho já resultou em mais de 103 mil vistorias realizadas, contribuindo para a manutenção desses espaços, a prevenção de riscos ambientais e a redução de situações que podem comprometer a qualidade urbana. A previsão é que as ações continuem sendo ampliadas, com pelo menos 12 mil novas vistorias programadas para 2026.
Na área de educação ambiental, o programa Fiscalizar e Educar realizou aproximadamente 500 atividades em mais de 37 localidades distribuídas pelas dez regionais da cidade nos últimos anos, promovendo conscientização sobre preservação ambiental, descarte adequado de resíduos e cuidado com os espaços urbanos. A iniciativa também produziu dezenas de materiais educativos e ampliou o diálogo com comunidades, escolas e instituições parceiras.
Já o Programa OPEROX atua no controle das emissões atmosféricas de veículos automotores. Entre 2022 e 2026, foram realizadas mais de 5,7 mil inspeções veiculares, contribuindo para os esforços municipais voltados à melhoria da qualidade ambiental urbana e ao controle de fontes de poluição.
Além dos resultados quantitativos, essas iniciativas ajudam a fortalecer a cultura de cuidado com os espaços urbanos, ampliar a participação da população e apoiar as estratégias municipais de adaptação às mudanças climáticas.
- Agenda integrada
O enfrentamento dos impactos associados ao calor extremo exige uma combinação de políticas públicas, planejamento de longo prazo e atuação permanente no território. Em Belo Horizonte, essa estratégia passa pela integração entre instrumentos urbanísticos, infraestrutura verde, preservação ambiental, fiscalização e educação ambiental.
Mais do que iniciativas isoladas, essas ações compõem uma agenda de adaptação climática construída de forma gradual e contínua. Da incorporação de diretrizes climáticas ao Plano Diretor à implantação de telhados verdes, jardins de chuva, refúgios climáticos e soluções baseadas na natureza, passando pelas ações de fiscalização e mobilização social, a cidade vem consolidando instrumentos que fortalecem sua capacidade de responder aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Trata-se de um esforço permanente para construir uma cidade mais sustentável, preparada e resiliente, capaz de enfrentar os impactos de uma emergência climática que já faz parte da realidade urbana contemporânea.
