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Tamanduá-bandeira como alimentação dada por técnico do Jardim Zoológico de Belo Horizonte.
Foto: Suziane Fonseca/PBH

Jardim Zoológico de BH sedia pesquisa sobre grupo de tamanduás-bandeira

27/11/2018 | 13:56 | atualizado em 27/11/2018 | 14:41

O projeto de pesquisa “Resposta comportamental de tamanduá-bandeira (Myrmecophoga tridactyla) em cativeiro com fezes de predador” é um dos dez projetos em desenvolvimento atualmente no Jardim Zoológico de Belo Horizonte, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig). O projeto tem como foco promover o bem-estar dos indivíduos cuidados no local, tendo em vista que a espécie - nativa brasileira - está ameaçada de extinção no país.

 

A demonstração de maior diversidade comportamental, bem como a capacidade de se adaptar a situações estressantes são consideradas bons indicativos de bem-estar animal, que é hoje uma das maiores preocupações de todas as instituições que mantêm animais sob cuidados humanos. O objetivo do estudo. coordenado pela equipe técnica da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZB), é investigar as respostas comportamentais de tamanduás-bandeira alojados em recintos do Jardim Zoológico da FPMZB após a colocação de fezes de onças-pintadas (predadores) nesses recintos como forma de proporcionar um estímulo sensorial para os tamanduás.

 

Responsável pelo desenvolvimento do estudo, o bolsista Matheus Henrique Ferreira da Silva, explica que, de um modo geral, os tamanduás-bandeira evitam ambientes que tenham a ocorrência de onças-pintadas e cães, e como possuem uma visão e audição pouco eficientes, se utilizam, em contrapartida, de sua grande sensibilidade olfativa para identificar a possível presença dos predadores. “A colocação de fezes de felino é uma forma de testar se este estímulo já se faz suficiente para manter os animais em estado de alerta, mesmo considerando sua vida fora do habitat natural”.

 

O comportamento de animais silvestres sempre instigou a curiosidade dos pesquisadores na tentativa de compreender melhor a dinâmica desses animais em seu habitat natural e assim conseguir traçar estratégias de conservação para as espécies. E para os animais que estão sob cuidados humanos, não é diferente. É importante estar atento a todos os aspectos, como as características comportamentais e o habitat de cada espécie, e também os hábitos e o histórico de cada indivíduo.

 

O projeto de pesquisa “Resposta comportamental de tamanduá-bandeira (Myrmecophoga tridactyla) em cativeiro com fezes de predador”, que teve início em março desse ano, está sendo realizado em três etapas e conta com a observação do comportamento de cinco indivíduos (três fêmeas e dois machos) da espécie em momentos distintos (ou seja, antes, durante e depois da inserção do estímulo sensorial). De acordo com o estudante de Biologia, o comportamento desses indivíduos se alterou bastante na presença das fezes das onças. “As fêmeas eram extremamente inativas no recinto e crípticas (quando os animais exibem uma semelhança visual com alguma parte de seu ambiente), e apresentavam posturas e posições de repouso que faziam com que o animal fosse confundido ainda mais com seu ambiente. Este quadro mudou significativamente com o experimento. Agora elas se mostram mais ativas no recinto. A fêmea Ana costuma deitar o mais longe possível das fezes e Bia e Clara normalmente permanecem patrulhando o recinto para ‘verificar’ se o felino não está nas redondezas”, relata.

 

Ainda de acordo com Matheus, os machos começaram a apresentar comportamentos de marcação de território, como arranhar as estruturas do recinto e esfregar o próprio corpo contra as árvores e paredes. “Os dois também acabaram interrompendo comportamentos menos importantes, como o de serem agressivos entre si, provavelmente para se manterem em estado de alerta diante de um perigo iminente”, destaca.

 

Esse novo controle é condizente com a proposta desenvolvida pela Área de Bem-Estar Animal do Jardim Zoológico de Belo Horizonte, que é a de proporcionar ao animal silvestre sob cuidados humanos, situações de enfrentamento que ele teria se estivesse em seu ambiente natural e que, caso consiga tal controle, seus níveis de bem-estar possam ser otimizados. E é isso exatamente que tem sido verificado (por meio dos comportamentos exibidos) até o momento por meio da pesquisa que está sendo desenvolvida com os tamanduás.

 

Matheus avalia ainda a importância de seu estudo para o desenvolvimento de outras pesquisas. “O trabalho visa subsidiar também futuros estudos de reintrodução, uma vez que o reconhecimento de possíveis riscos, como a presença de predadores, se torna imprescindível para animais que perderam a prática de viver em vida livre. E como existem poucos estudos sobre esses animais, mais trabalhos sobre a ecologia e comportamento da espécie se fazem extremamente necessários para formular estratégias de conservação.”, destaca o bolsista.


 

Programa de Bem-Estar Animal

Segundo Érika Fernandes Cipreste, responsável pela Área de Bem-Estar Animal do Jardim Zoológico da FPMZB e coordenadora do estudo feito por Matheus, uma instituição que tem animais sob seus cuidados, além de prezar pelo bem-estar e contribuir com a melhoria da qualidade de vida dos mesmos, deve sempre estimular e apoiar trabalhos de pesquisa que forneçam informações a respeito destes animais em cativeiro. “Isso é fundamental para ajudar na conservação da espécie na natureza, além de poder subsidiar futuros trabalhos de reintrodução. Além disso, com essa pesquisa conseguimos ter um olhar mais detalhado sobre os nossos animais para acompanhar o comportamento e as interações entre eles e com o ambiente em que vivem”, afirma a bióloga.

 

Érika explica que esse tipo de pesquisa contribui para o desenvolvimento das atividades diárias dos profissionais. “Com o acompanhamento desses animais durante o projeto podemos ter informações não só sobre a espécie, mas também sobre cada indivíduo, sobre suas interações e comportamento, o que só aumenta a nossa chance de melhorar o nível de bem-estar dos mesmos, com mais precisão sobre suas necessidades. Além disso, o estudo pode ajudar em nossas atividades diárias, bem como em futuros trabalhos de pesquisa que podem ser desenvolvidos na Fundação”, completa.

 

 

27/11/2018. Comportamento de grupo de tamanduás-bandeira é tema de pesquisa no Jardim Zoológico de Belo Horizonte. Fotos: Matheus Henrique/FPMZB