12 Fevereiro 2026 -
Com os desfiles consolidados na Avenida dos Andradas e a expectativa de receber milhares de foliões, as escolas de samba de BH celebram não apenas o espetáculo visual, mas a vitória da continuidade. A oficialização do samba como patrimônio imaterial, em 2024, protege justamente essa herança, garantindo que a cultura raiz tenha futuro.
E no Carnaval de BH 2026, essa tradição ganha um novo capítulo na Avenida dos Andradas, na altura da Praça da Estação, que se consolida como o palco oficial dessa celebração nos dias 16 e 17 de fevereiro. A passarela do samba receberá não apenas as escolas, mas também os tradicionais blocos caricatos, uma manifestação cultural exclusiva de Belo Horizonte, onde famílias inteiras desfilam em caminhões decorados e baterias no chão, misturando teatro e folia.
O palco da continuidade
Quando a Avenida dos Andradas é fechada para o trânsito de carros e se abre para o Carnaval de Belo Horizonte, o que entra em cena não são apenas alegorias imponentes e fantasias coloridas, mas a história viva de famílias inteiras. Mais do que agremiações recreativas, as escolas de samba da capital consolidaram-se como verdadeiros quilombos culturais contemporâneos, onde a paixão pelo ritmo é o elo inquebrável que une avós, filhos e netos na mesma cadência.
Com o recente reconhecimento do samba como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade, fruto de um inventário detalhado realizado em parceria com a UFMG, a folia de 2026 celebra a gestão familiar e a transmissão de saberes como a espinha dorsal desta festa que movimenta a economia e a identidade local. A pesquisa "Horizontes do Samba" revelou que essa estrutura familiar não é exclusividade de uma única escola, mas a base de sustentação do samba mineiro.
Desde a pioneira Pedreira Unida, fundada em 1938, até as potências atuais, a hereditariedade garantiu a resistência da cultura popular mesmo nos períodos de menor investimento. Nos barracões e quadras espalhados pelas regionais da cidade, o ofício do carnaval é ensinado dentro de casa: a avó costureira ensina a neta, o pai mestre de bateria ensina o filho ritmista, transformando o desfile em um rito de passagem e pertencimento.
Para garantir que essa herança seja vivenciada por todas as gerações, a programação deste ano traz uma mudança histórica: os desfiles começarão mais cedo, durante a tarde. Na segunda-feira (16), o Grupo de Acesso abre os caminhos a partir das 14h, seguido pelos Blocos Caricatos do Grupo A ao anoitecer. Já na terça-feira (17), é a vez do Grupo Especial brilhar a partir das 18h. Essa alteração estratégica permite que crianças, idosos e famílias inteiras participem da festa com a luz do dia.
Essa transmissão de saberes é o que mantém viva a chama da Velha Guarda do Samba de BH. Fundada em 1970, a agremiação reúne a memória viva do carnaval da cidade. O grupo carrega a sabedoria de ícones que dedicaram a vida à folia, como o saudoso Mandruvá (1955-2023). Falecido em 2023, o eterno intérprete e compositor deixou um ensinamento que ecoa até hoje nas quadras de BH, conforme registrou em entrevista ao Portal Uai: "Nós somos a raiz. Sem raiz, a árvore não fica em pé. O carnaval de BH cresceu, virou multidão, mas quem segurou a bandeira quando ninguém olhava para a gente foram as comunidades, as famílias que nunca deixaram o samba morrer”, disse (In Memoriam).
Quem segue levando esse estandarte é o lendário Mestre Conga. Aos 97 anos, o fundador da Inconfidência Mineira e Cidadão Samba perpétuo da cidade continua sendo a referência máxima de resistência cultural. Em entrevista ao Estado de Minas, ele definiu com precisão o sentimento que atravessa o tempo. "O samba é a minha vida, a minha alma. Eu não sei fazer outra coisa a não ser sambar e ensinar o que aprendi. A gente passa o bastão, mas o amor fica”, revelou.
O reconhecimento oficial
O presidente da Belotur, Eduardo Cruvinel, lembra que as escolas de samba e os blocos caricatos estão na origem do Carnaval de Belo Horizonte. "São manifestações que atravessam gerações, mantidas por famílias inteiras que dedicam tempo, talento e paixão à nossa cultura. A Prefeitura reconhece essa trajetória histórica e trabalha para fortalecer essas agremiações, garantindo estrutura, diálogo permanente e políticas públicas que valorizem quem construiu e mantém viva a essência da nossa festa”.
Os desfiles das Escolas de Samba e Blocos Caricatos são realizados pela Prefeitura de Belo Horizonte, em parceria com as ligas das agremiações, e contam com a colaboração da Câmara de Dirigentes Lojistas de Minas Gerais (CDL-MG), da Esportes da Sorte e do Supermercados BH, além da parceria cultural com o Sesc em Minas e do patrocínio da Caixa Econômica Federal.
