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Três pessoas de pé, sendo dois adultos e um jovem, no meio de um círculo formado por dezenas de jovens sentados, em escola
Foto: Lidiany Sant'Anna

Escola municipal implanta metodologia referência em ensino

20/03/2018 | 14:47 | atualizado em 02/04/2018 | 09:33

Um modelo pedagógico pioneiro na rede municipal de educação de Belo Horizonte está sendo implantado pela equipe da Escola Municipal Polo de Educação Integrada (avenida Menelick de Carvalho, s/n, bairro Flávio Marques Lisboa), na região do Barreiro. À primeira vista, o diferencial da nova proposta é integrar e intercalar aulas teóricas e oficinas que, no modelo do Programa Escola Integrada implantado nas demais escolas, são divididas em turnos diferentes.
 

Mas a unificação, inspirada nas experiências de países como Portugal e Finlândia, também perpassa metodologias de trabalho, além de diferentes saberes e áreas científicas. Com uma proposta pedagógica cujo foco é o sujeito e sua individualidade, a escola em tempo integral associa os conhecimentos acadêmicos entre si e com os saberes populares. O planejamento é feito de forma conjunta. Ao invés de dividido em disciplinas, o conteúdo é agrupado em áreas do conhecimento e inclui não só diferentes ciências, mas também oficinas correlacionadas a elas e aos temas que estão sendo trabalhados.
 

Diariamente, das 7h às 8h, a equipe pedagógica formada pela coordenação, professores e monitores de oficinas, se reúnem para planejar a forma como o conteúdo será trabalhado. “A escola busca a efetiva conexão dos conteúdos escolares com os saberes comunitários, a cultura popular e as experiências sociais dos sujeitos envolvidos no processo educativo”, explica o coordenador geral pedagógico da escola, Anderson Cunha.
 

Há três áreas de conhecimento. Na área denominada Códigos e Linguagens estão agrupadas língua portuguesa, língua estrangeira, educação física e arte. A área Ciências da Natureza e Matemática engloba biologia, química, física e matemática, enquanto a área de Ciências Humanas reúne história e geografia. Elas dialogam entre si e complementam os conteúdos em suas áreas de convergências. “Essa integração nos permite dar mais significado ao aprendizado”, destaca Anderson, chamando atenção para a intercessão existente entre história e geografia ao falar de tempo e espaço, por exemplo.
 

As aulas não são expositivas, mas totalmente interativas. Os estudantes estão sempre em grupo e as propostas de roteiros das aulas e oficinas partem deles. “O professor assume um lugar de orientador”, segundo Anderson. A aula expositiva em que os alunos enfileirados ouvem o que o professor fala dá lugar a uma aprendizagem mais autônoma e mais democrática com protagonismo dos alunos. Um projeto educativo que estimula a criatividade, a responsabilidade e a autonomia.
 

Os 170 estudantes de 10 a 16 anos são acompanhados por 11 professores e 11 monitores. Eles permanecem na escola das 8h às 17h, recebem lanches e almoço e participam de 20 módulos por semana, com duração de uma hora e 45 minutos. São planejados 12 tempos para as áreas do conhecimento, uma roda de conversa, duas tutorias, quatro vivências práticas e uma atividade autônoma. O espaço da escola oferece diversos espaços para as atividades. Na área de 45 mil m² há quadras esportivas, campo de futebol, vestiários, auditório, biblioteca, laboratórios de informática, estúdio de rádio, horta e salas temáticas de dança, música e oficinas de arte; além de bosque, gramados e tendas.
 

A roda de conversa semanal reúne todos os estudantes, professores e monitores. Os temas são discutidos em grupos e a seguir compartilhados. “Na primeira roda abordamos os direitos dos alunos e eles falaram o que gostariam que a escola oferecesse. Agora estão discutindo os limites e seus deveres”, explica a professora Nícia Carvalho. A equipe motiva a discussão e os estudantes propõem e votam os combinados em assembleia. “Quando os meninos jogarem futebol, as meninas poderão jogar também”, sugeriu Arthur Rodrigues, de 11 anos, ao ler as propostas de um dos grupos. Questões como organização da fila do lanche, preconceito e respeito ao corpo do outro também foram abordadas pelos alunos. Entre as sugestões estão a construção de um bicicletário e a realização de um show de talentos. 
 

Cada professor é tutor de um grupo de 15 estudantes. Eles se encontram duas vezes por semana para orientações em relação aos estudos. Além de avaliarem dificuldades pedagógicas e cognitivas, os professores estabelecem proximidade com as vivências individuais de cada estudante e mantêm contato com a família, em busca de uma abordagem mais personalizada e humanizada de cada criança. Assim, a equipe se mantém atenta a questões pessoais que influenciam de forma decisiva no desempenho escolar.
 

As oficinas são realizadas sempre em consonância com as demais atividades. Entre as opções a serem escolhidas pelos alunos conforme suas preferências individuais estão aulas de música, dança, fotografia, capoeira, vídeo, rádio, educação patrimonial, educação ambiental e plantio de horta. “Na capoeira há a oportunidade de trabalhar questões como ancestralidade, tradições, resistência, dialogando com o fazer do professor”, exemplifica o coordenador pedagógico. Os estudantes estão aprovando. “Já aprendi várias coisas de geografia, português, inglês, tocar tambor, coreografias. É um jeito legal de aprender brincando. Não dá nem pra cansar”, avalia a Ana Clara Araújo, 11 anos, aluna do 6º ano. Daniel Costa, 14 anos, aprova a metodologia: “Aqui você estuda e brinca, estuda e brinca”, descreve. 
 

Além das atividades monitoradas, uma vez por semana os estudantes têm um módulo para realizarem atividades autônomas. Nesse módulo, podem escolher entre permanecerem na sala de informática, na biblioteca, ou realizar atividades de recreação ou esporte. “Gosto muito da biblioteca, ela tem muitas opções de leitura e é muito ampla”, elogia Núria das Candeias, do sexto ano. 
 

A implantação do modelo vem sendo discutida desde 2013 e incluiu visitas a escolas que já utilizam a metodologia. Seguindo uma orientação da Secretaria Municipal de Educação, parte da equipe visitou escolas que já adotam o modelo de currículo integrado para complementar os conhecimentos adquiridos por meio do estudo de fontes bibliográficas. Foram visitadas duas escolas da rede municipal de São Paulo e duas da rede particular de Belo Horizonte. 
 

“Ao vermos experiências de mais de 20 anos, percebemos uma efetividade muito grande na construção da autonomia dos alunos. Eles nos apresentaram a escola e explicaram com muita propriedade, demonstrando uma compreensão de todo o processo e porque ele é feito daquela forma”, observa a vice-diretora da escola, Shirlei Lopes. “Ver de perto essas experiências foi muito rico. Nosso intuito não é replicá-las, mas nos inspirarmos na implementação desse formato pedagógico que convida os estudantes e professores a ser reposicionarem de forma mais dialogada”, pontua.
 

Apaixonados pela proposta, os professores falam sobre o planejamento e os primeiros dias de aula com o brilho no olhar de quem parece estar vivenciando um sonho. “Estou encantado ao ver que é possível aprender de forma diferente”, avalia Baltazar Nunes, professor de língua inglesa há 17 anos. “Aqui o professor assume o papel de mediador”, explica. 
 

Entre os pais as dúvidas acerca da proposta são comuns, mas há também muitos elogios em relação à receptividade e afetividade da equipe com os alunos e a família. Atenta à necessidade de ajudar os pais no processo de compreensão da organização da escola, a equipe elaborou um guia apresentando os profissionais e questões próprias da dinâmica da pedagogia e da relação com as famílias. Quem já conhece a metodologia aprova. “Como professora, percebo que a forma como a criança absorve o conhecimento hoje é diferente. É uma forma mais integral. Ensinei minha filha a gostar de matemática e como é possível aplicá-la em pequenas coisas do dia a dia, cozinhando. É muito importante estabelecer diálogo entre o ensino e a vivência do que se aprende”, observa Nilmara Gomes, mãe de Nina Flor Gomes, do 7º ano.

 

O primeiro roteiro

Em uma escola onde a individualidade do estudante é o centro e ele constrói junto com os colegas o roteiro das aulas, a inovação é percebida logo na chegada. Para promover a integração, ao invés de pedir aos estudantes que se apresentassem dizendo o nome, a equipe da escola elaborou um planejamento que perpassou as diversas áreas do conhecimento e todas as atividades práticas oferecidas nas duas primeiras semanas de aula.
 

O roteiro incluiu discussões e atividades sobre o sujeito, sua identidade social, bairro, família, linha do tempo da vida, rotina diária, relatos do dia anterior, além de questões sobre etnia e seus aspectos geográficos, históricos, culturais e biológicos, cálculo do índice de massa corporal, utilizando a matemática e práticas de atividades físicas. Com isso, a equipe buscou levar os alunos a um mergulho no tema, com o objetivo de promover não só o conhecimento sobre os colegas, mas também o autoconhecimento.