Pular para o conteúdo principal

Várias pessoas participam de uma roda de conversa, sentadas em cadeiras dispostas em círculo, em uma sala.
Flávia Paixão

Biblioteca municipal mantém viva a tradição da contação de histórias há mais de 3 décadas

criado em - atualizado em

Quem passa pela Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte (BPIJ-BH) em uma manhã de sexta-feira pode se deparar com a seguinte cena: um círculo de cadeiras ocupado por pessoas envolvidas em uma conversa que flui com facilidade, em meio a falas entusiasmadas e olhares atentos. Elas estão ali para ouvir e contar histórias e se revezam no papel de narradoras e de plateia, em uma dinâmica entrecortada por risos, palmas e muitas memórias. 

O encontro semanal de contadores de histórias faz parte das atividades que a BPIJ-BH realiza desde 1991, quando foi criada, como estratégia para colocar a narração e a oralidade no centro dos esforços municipais de promoção da leitura e da literatura. Atualmente, cerca de 30 pessoas participam do projeto com regularidade. Mas o universo de impactados vai muito além: os integrantes do grupo frequentemente realizam apresentações para escolas que agendam sessões de contação com o setor educativo da biblioteca. 

De acordo com o mediador de leitura da BPIJ-BH, Samuel Medina, que divide o acompanhamento do grupo com outros membros da equipe da biblioteca, trata-se de um espaço de experimentação, em que os participantes trocam referências, opiniões e dicas sobre contação de histórias e temas correlatos, como literatura infantil e a imagem da infância ao longo do tempo, numa perspectiva de construção e consolidação de seu próprio potencial. “Temos essas reuniões para a troca de experiências, além de oficinas eventuais de formação e normalmente, uma vez por mês, o encontro com um escritor, que traz textos literários para leitura e discussão”, conta Medina. 

Figura recorrente nas reuniões, Beatriz Myrrha, de 58 anos, é musicista, atriz e educadora, além de contadora de histórias profissional que marca presença em eventos e festivais há 35 anos. Ela conta que essa extensa trajetória, em boa medida, teve início na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil,  em 1991, quando o equipamento cultural da Prefeitura ficava na Rua Carangola (bairro Santo Antônio), e Beatriz, aos 22 anos, ainda engatinhava no universo das narrativas orais. “Eu tinha uma necessidade de expressão muito grande, de fazer as coisas acontecerem, mas eu era muito tímida. Então, quando a biblioteca surgiu e me permitiu, ainda que como voluntária, que eu contasse histórias lá, foi o meu alicerce. E eu fazia isso junto de uma equipe que sabia tudo de literatura. Na biblioteca, eu não só descobri grandes escritores como conheci alguns pessoalmente”, relembra. 

Representante da nova geração do grupo de contação de histórias, Isabella Albuquerque, 34 anos, é bombeira militar, poeta e formada em Letras, área em que também é doutoranda. A arte das narrativas orais surgiu para ela na faculdade, onde participou de um grupo que investia nesse trabalho. “Gosto de contar histórias, mas gosto ainda mais de ouvi-las. É divertido e um aprendizado”, justifica. Sua entrada no coletivo da BPIJ-BH se deu ao reencontrar a biblioteca, de onde já era frequentadora na infância e adolescência. “Estou envolvida nesse projeto desde o ano passado e frequento sempre que posso. Nele, aprendo com pessoas que contam histórias há muitos anos, e cada uma faz isso de uma maneira particular, o que acho muito interessante. Afinal, a forma de contar histórias é individual, claro, mas a gente acaba pegando para si um pouquinho do que gostamos nos outros e, com isso, vai lapidando o nosso próprio jeito”, explica. 

Também contador de histórias e escritor, Samuel Medina defende que o grupo de contação de histórias traduz com vitalidade parte da missão institucional da BPIJ-BH. “Gosto de dizer que a biblioteca é o lugar da palavra, e quando pensamos nas linhas de atuação da biblioteca, temos a palavra passeando por esses três lugares: pelo livro como suporte; pela literatura como linguagem artística e de expressão da pessoa; e pela oralidade. Temos esse enfoque do encantamento, do maravilhoso e da fantasia a partir da narrativa, que pode ser textual, mas também oral”, finaliza. 

Para a presidenta da Fundação Municipal de Cultura, Bárbara Bof, o grupo de contadores de histórias ilustra de maneira exemplar as possibilidades de valorização e democratização da literatura promovidas pela gestão municipal. “A promoção da leitura e da escrita representa um objetivo valioso para as políticas culturais e, em especial, para o Plano Municipal de Leitura, Literatura, Livro e Bibliotecas, de 2023, que visa a fortalecer essa frente de atuação por um período de 10 anos. Nesse sentido, a articulação entre texto e oralidade permite cativar novos públicos e, assim, facilitar o acesso da população ao direito de se apropriar da palavra como ferramenta básica para o exercício da cidadania e do potencial criativo dos sujeitos”, avalia a presidenta. 

Interessados no grupo de contação de histórias da BPIJ-BH podem conhecer a iniciativa de perto. Basta comparecer ao prédio da biblioteca (Rua Espírito Santo, 593, Centro) no horário regular da atividade – sextas-feiras, às 10h – ou entrar em contato pelo telefone (31) 3277-8658 ou e-mail bpij.fmc@pbh.gov.br. Além disso, o equipamento cultural realizará, de 20 a 22 de agosto, a “3ª Mostra Era Uma Vez de Narração de Histórias", que terá uma programação gratuita, aberta ao público, com mesas de debate, apresentações e oficinas. As inscrições para o evento, que é bienal e integra a programação comemorativa pelos 35 anos da BPIJ-BH, estarão abertas até o fim deste mês de julho e serão divulgadas no Portal Belo Horizonte, Portal da PBH e nos perfis da Fundação Municipal de Cultura e da BPIJ-BH no Instagram (@culturadebh e @bpijbh). 

Rede de Bibliotecas 

A Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte faz parte de um conjunto de 22 equipamentos culturais mantidos pela Prefeitura, em todas as regiões do município, dedicados à promoção da leitura e da escrita. Incluindo as bibliotecas dos centros culturais e as unidades instaladas no Museu da Moda, no Cine Santa Tereza, no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado e na Escola Livre de Artes Arena da Cultura, a Rede de Bibliotecas Públicas de BH disponibiliza à população um acervo de mais de 200 mil itens, entre livros, gibis e outras publicações para consulta e empréstimo, além de oficinas literárias, rodas e clubes de leitura, saraus, narração de histórias, encontros com escritores e outras atividades dedicadas ao desenvolvimento da cultura e do conhecimento em geral, por meio da palavra.