26 June 2026 -
Belo Horizonte encerrou nesta sexta-feira (26) a 4ª edição do Seminário Internacional de Segurança Alimentar e Nutricional, consolidando a capital mineira como referência nacional e internacional na construção de políticas públicas para sistemas alimentares mais justos, resilientes e sustentáveis. Realizado pela Secretaria Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional em parceria com a FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) e o ICLEI – Governos Locais para a Sustentabilidade, o evento ultrapassou a marca de 500 inscritos e reuniu 170 municípios, 20 estados e de outros quatro países: Itália, Chile, Peru e Colômbia.
Com o tema “Abastecimento Alimentar, Emergência Climática e Fome”, o seminário trouxe um debate essencial no momento atual: o combate à fome e a promoção da alimentação adequada exigem uma nova geração de políticas públicas de abastecimento, capazes de dialogar simultaneamente com a emergência climática, a inclusão social e a governança territorial das cidades.
Abastecimento como infraestrutura estratégica das cidades
O segundo dia do seminário consolidou uma percepção que vinha sendo construída desde a abertura: a segurança alimentar não pode mais ser tratada apenas como uma política assistencial, devendo constituir-se como política permanente de desenvolvimento econômico, inclusão produtiva e adaptação climática.
O painel da manhã reuniu especialistas como Walter Belik, diretor do Instituto Fome Zero e presidente do Banco de Alimentos da Associação Prato Cheio de São Paulo, Ana Terra, secretária de Abastecimento, Cooperativismo e Soberania Alimentar do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e Lilian Rahal, secretária Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, além de Rodrigo Perpétuo, secretário-executivo do ICLEI América do Sul, para debater os desafios do século XXI. Entre as principais mensagens apresentadas, sobressaíram-se: a necessidade de reposicionar o abastecimento alimentar como infraestrutura essencial das cidades; a importância de reduzir a vulnerabilidade das cadeias longas de suprimento; a ampliação do acesso a alimentos frescos e saudáveis em territórios periféricos; o fortalecimento das compras públicas da agricultura familiar e a valorização dos mercados públicos e das Centrais de Abastecimento.
Houve convergência em torno da ideia de que a segurança alimentar precisa ser encarada como política estruturante, articulada ao SISAN - Sistema Alimentar de Segurança Alimentar e Nutricional -, ao III PLANSAN - Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional -, lançado recentemente em Belo Horizonte, e às estratégias de desenvolvimento urbano sustentável.
Troca de experiências e soluções locais
A sessão de intercâmbio de experiências demonstrou que diversos municípios brasileiros vêm desenvolvendo respostas inovadoras para enfrentar a insegurança alimentar. Foram apresentados relatos relacionados à agricultura urbana e periurbana, cozinhas comunitárias, bancos de alimentos, hortas escolares, comercialização direta entre agricultores e consumidores, e programas municipais de abastecimento.
Os debates reforçaram que as soluções mais eficientes são aquelas construídas a partir das especificidades territoriais, articulando governos locais, universidades, organizações sociais e agricultores familiares. Para a CEAGESP - Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo -, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e da Agricultura Familiar, e para a ABRACEN - Associação Brasileira de Centrais de Abastecimento -, essa discussão representa uma oportunidade concreta de ampliar o reconhecimento das Ceasas como equipamentos públicos estratégicos para a resiliência alimentar das regiões metropolitanas.
Premiação inédita reconhece boas práticas
Um dos momentos mais simbólicos do evento foi a cerimônia de premiação das experiências selecionadas pela Comissão Científica do Seminário. Foram reconhecidas iniciativas oriundas do poder público e da sociedade civil que apresentaram elevado impacto social, capacidade de inovação, fortalecimento da participação comunitária e integração entre abastecimento, combate ao desperdício e sustentabilidade ambiental.
Ao todo, o seminário selecionou vinte experiências para apresentação, com a concessão de menções honrosas às iniciativas com melhor avaliação técnica. A premiação demonstrou que há, em diferentes regiões do país, um conjunto expressivo de tecnologias sociais já testadas e prontas para serem disseminadas em escala nacional.
Feira da Economia Solidária e Segurança Alimentar e encerramento
No período da tarde, a Rua Goiás, ao lado do local do evento, transformou-se em espaço de convivência, comercialização e celebração da diversidade alimentar brasileira. A Feira da Economia Solidária e Segurança Alimentar reuniu agricultores familiares, empreendimentos populares, cooperativas, artesãos e organizações comunitárias, com produtos como hortaliças agroecológicas, frutas processadas, mel e derivados, ervas medicinais, alimentos artesanais, produtos da sociobiodiversidade e artesanato popular.
Mais do que um espaço comercial, a feira assumiu caráter pedagógico, demonstrando que modelos econômicos baseados na cooperação e na proximidade territorial podem contribuir para reduzir desigualdades e construir sistemas alimentares mais justos.
O encerramento do seminário, na noite dessa quinta-feira (25), foi uma grande festa aberta ao público, com atrações musicais e culturais gratuitas, incluindo discotecagem do Ponto Nordeste e show do Bloco Timbaleiros do Ghetto, com apoio da secretaria municipal de cultura.
Na sexta-feira (26), o evento se despediu com visitas técnicas a equipamentos de Segurança Alimentar e Nutricional da capital mineira, permitindo que gestores e especialistas conhecessem in loco as políticas públicas que fazem de Belo Horizonte uma referência na área.
A realização do seminário reafirma o protagonismo de Belo Horizonte no debate sobre segurança alimentar. A cidade, que criou a Secretaria Municipal de Abastecimento em 1993,sedia um evento que se consolidou como o principal fórum de articulação entre governos locais, organismos internacionais e sociedade civil para enfrentar a fome e as mudanças climáticas.
“Este 4º seminário Internacional com o tema abastecimento alimentar, emergência climática e fome vem para unir forças. O tamanho do desafio exige a cooperação de todos: entre países, entre municípios e entre a ciência e a política”, destacou a secretária municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, Darklane Rodrigues, na abertura do evento.
“Se o primeiro dia mostrou que a fome é um desafio sistêmico das cidades contemporâneas, o segundo dia demonstrou que já existem experiências concretas capazes de apontar caminhos para a construção de sistemas alimentares resilientes, inclusivos e territorialmente enraizados. Com 170 municípios, 20 estados e 4 países representados, o 4º Seminário Internacional de Segurança Alimentar e Nutricional de Belo Horizonte deixou claro que o combate à fome e à emergência climática exige ação coordenada em todas as escalas – e que as cidades brasileiras já têm muito a ensinar ao mundo”, complementou a secretária.
Para Corinna Hawkes, diretora da Divisão de Sistemas Agroalimentares da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura - FAO, presença importante no seminário, compartilha do mesmo pensamento de cooperação para vencer as adversidades: “Quando falamos em resiliência, precisamos mudar a forma como enxergamos os desafios. Em vez de focarmos apenas nos riscos, devemos identificar oportunidades para transformar nossos sistemas. O primeiro passo é construir uma visão compartilhada, compreendendo qual futuro desejamos alcançar coletivamente. A partir dessa visão, é fundamental desenvolver um diagnóstico compartilhado, analisando as conexões, concessões e dinâmicas de poder que influenciam os resultados”, diz.
