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Aluno da rede municipal de ensino ao lado de horta de aquaponia na Escola Adauto Lucio
Foto: Amanda Antunes

BH em Pauta: Prodígios da aquaponia

19/06/2017 | 18:01 | atualizado em 15/01/2018 | 12:45

Uma provocação do monitor Walisson Aílton Menezes, do Projeto Escola Integrada, da Escola Municipal Adauto Lúcio Cardoso, foi o estopim para a criação do projeto de aquaponia, desenvolvido pelos alunos do 5º ao 9º ano, como solução para a produção de alimentos em pouco espaço.  



A pergunta - "Se em 2050, nove bilhões de habitantes do planeta não tivessem áreas agricultáveis, como iriam produzir alimentos?" - foi feita no ano passado e a resposta para o desafio rendeu projetos de cultivo, com o aproveitamento de um espaço de 20 metros nos fundos da escola, que passou a ser utilizado para uma horta convencional. "O trabalho transformou uma área com pouco uso em um local agradável e produtivo, que, além de trazer vida, pode ser utilizado como laboratório que envolve várias disciplinas", afirma Walisson.



O monitor conta que, após uma hora de pesquisas, os alunos apresentaram soluções de plantio como a aquaponia, que une a piscicultura (cultivo de peixes) e a hidroponia (cultivos de plantas, com as raízes submersas na água). A implantação do projeto contou com a parceria do professor de educação física Fábio Lopes. A escola forneceu todo o material para os alunos desenvolverem a horta da forma como a planejaram e idealizaram. 



No projeto, iniciado em fevereiro do ano passado, estão envolvidos cerca de 15 integrantes de 10 a 15 anos. No Programa Escola Integrada os alunos não são divididos por série, e sim por idade. "A intenção é proporcionar aos estudantes a oportunidade de participarem e aprenderem coisas novas, que normalmente não teriam a chance, tendo em vista que a maioria é carente de recursos", conta Walisson. 



Desde a criação do projeto, os alunos melhoraram o interesse e comprometimento com as atividades na escola. “Hoje em dia, eles já chegam na escola procurando a chave do espaço para fazer a manutenção, dar a ração para os peixes. A cada evolução, comemoram muito”, disse o monitor.

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Na primeira fase, foram plantados morango, almeirão, cebolinha e, em maior quantidade, alface. A colheita da primeira plantação foi suficiente para abastecer a cantina durante todo o mês de novembro do ano passado. Recentemente, foi ampliado o sistema de aquaponia e a produção já é suficiente para abastecer a escola, com leguminosas e folhosas.



Danilo Marcos de Alvarenga é referência do Programa Saúde na Escola (PSE) da Escola Adauto Lucio e avalia os benefícios que o projeto de aquaponia trouxe para os alunos. “O desperdício tem diminuído muito, a partir da experiência de plantar e manter a horta que os alunos estão vivendo. Começaram a conhecer alimentos que não tinham o hábito de ver, como agrião, almeirão, salsinha. Descobriram que verdura não é só alface e couve”, disse.

 

Líderes socioambientais 

As atividades na horta empolgaram tanto os alunos que os jovens criaram uma empresa com logomarca, slogan, cartilhas e uma página nas mídias sociais, batizada como Círculos Aquapônicos. A empresa fez com que a escola se tornasse conhecida por ser a primeira da cidade a implantar um sistema de aquaponia, que hoje atrai o interesse de estudantes de outras unidades de ensino da capital. Além disso, os moradores do entorno também podem visitar e conhecer o sistema. 
 

As atividades da Escola Integrada não valem como nota, mas os estudantes, que antes não tinham tanta vontade de estar na escola, hoje demonstram empenho e dedicação. "Notamos que os alunos aumentaram muito o interesse em estudar, melhoraram o relacionamento com os colegas e estão se tornando líderes socioambientais", revela Fábio Lopes.
 

Por meio da empresa, os alunos da Adauto Lúcio Cardoso, com o auxílio do monitor, ministram palestras para difundirem o trabalho em outras escolas da cidade. Um dos integrantes, Moisés Erivelton Soares, 12, que pretende se tornar engenheiro agrônomo, já implantou o projeto na própria casa: “Na minha casa aproveitei telhas para fazer o sistema. A gente não compra mais verduras porque estamos produzindo tudo que consumimos. Esse projeto me motivou a pesquisar sobre o assunto, e, no futuro, quero ser engenheiro agrônomo”.
 

Ano passado, os alunos deram consultoria e iniciaram a implantação do sistema em outra escola municipal da região, e pretendem ampliar o projeto para algumas escolas estaduais de Belo Horizonte, que também se interessaram pelo assunto. A Escola Mário Mourão Filho já sinaliza que quer receber a consultoria. 

 

Tecnologia do processo


Com a união da psicultura e da hidroponia, a proposta da aquaponia é aproveitar os dois sistemas para o cultivo de verduras. O excremento produzido pelos peixes no tanque é rico em nutrientes que alimentam as plantas, que, por sua vez, filtram a água para o peixe. Os dois sistemas estão fisicamente separados e são interligados por um sistema de bombeamento que leva a água com fezes de peixe para o sistema hidropônico e devolve a água limpa do sistema hidropônico para o tanque com os peixes.
 

Na escola Adauto Lúcio (rua Ernesto Gazzolli, s/nº, bairro Céu Azul) foram usados canos PVC e as mudas são colocadas em copos descartáveis que servem de base para a planta. As mudas maiores são plantadas diretamente no cano. Enquanto na horta convencional, as plantas levam, em média, 60 dias para serem colhidas, no sistema aquapônico o tempo de colheita é de 45 dias.