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Seis cidadãos em situação de vida nas ruas jogam futebol de salão.
Foto: Debora Oliveira

BH em Pauta: Oficinas de Futebol

28/06/2017 | 17:48 | atualizado em 03/07/2017 | 09:52
Marcos Paulo Teixeira Pinheiro, de 20 anos, espera ansioso por cada quinta-feira. Na véspera dos treinos, ele até busca ficar mais recolhido para manter o foco, já que é um dos destaques nas oficinas de futebol idealizadas pelo assistente social e criminólogo Alan Pereira da Silva
 
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Ao lado de outros 20 atletas, Marcos treina uma vez por semana no projeto do Centro de Referência para a População em Situação de Rua – Centro Pop Leste -, da Prefeitura de Belo Horizonte. As atividades são realizadas em uma quadra alugada, próxima ao equipamento público. O projeto teve início em março e já vem gerando resultados animadores. Desde então, cinco frequentadores conseguiram sair das ruas e outros sete voltaram a estudar.
 

Marcos é um dos exemplos. Lateral-direito habilidoso, ele sonhava ser jogador de futebol profissional quando criança, mas já adolescente, aos 14, fugiu de casa para se livrar da violência do padrasto e acabou encontrando a violência da rua, a maconha, o thinner (solvente utilizado como droga), entre outros dramas.
 

Quando adolescente, Marcos passou por diversos serviços da política de assistência social da PBH, dos abrigos e centros de passagem ao Centro de Referência da Criança e do Adolescente - Centro Pop Miguilim. Frequentou a escola até a oitava série.
 

Com a chegada da maioridade, ele já conhecia os caminhos para o acesso aos serviços públicos. Contudo, só conseguiu dar novo significado à vida quando se deparou com a oportunidade de vivenciar novamente a grande paixão, a prática do futebol.“Eu estava cheirando muito thinner, andava perdido. Agora, vejo uma chance de fazer o que mais gosto e estou vendo que a droga e o futebol não combinam”, conta Marcos, que assumiu até o posto de capitão da equipe.
 

A empolgação com o projeto é tamanha que os atletas do Centro Pop Leste tiveram a iniciativa de promover um torneio de futebol entre times representantes de alguns dos serviços que atendem à população em situação de rua. Além do time da casa, disputaram o troféu o Abrigo Pompeia, o Albergue Tia Branca e o Abrigo Granja de Freitas, todos esses da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH).
 

O evento foi realizado em 22 de junho passado, na quadra Tia Lourdes, no Bairro Floresta, reunindo até torcedores das quatro equipes. O Abrigo Pompéia conquistou o título, ficando o vice com o Centro Pop Leste. “Nós ficamos em segundo lugar. Eu fiquei muito orgulhoso do nosso resultado. Agora, é treinar para vencer o próximo”, afirma Marcos. “É claro que eu queria que eles ganhassem, mas vê-los perder e lidar bem com a perda foi fantástico”, reflete Alan Pereira.
 


Regras claras


O idealizador das oficinas de futebol conta que, durante os atendimentos técnicos no Centro Pop Leste, ele notou um grande número de pessoas comprometidas com o uso e abuso de drogas na faixa etária entre 18 e 40 anos. Assim, teve a ideia de usar o esporte como ferramenta de recuperação e inclusão social.
 

“Eu propus uma oficina de futebol para uma organização social. Montamos um time com 21 usuários do Centro Pop. E o interesse tem sido cada vez maior. A ideia é trabalhar o senso coletivo, porque no futebol um precisa tocar a bola para o outro e, para isso dar certo, eles precisam dialogar. Mostramos a eles que se eles conseguem dialogar no futebol, também conseguem dialogar na rua ou com a família. Se conseguem acordar cedo para ir ao futebol, também conseguem acordar cedo para buscar um emprego. Se conseguem ficar um dia sem usar drogas para jogar o futebol, vão conseguir ficar outros dias sem drogas para se organizar”, defende Alan.
 

Como no futebol, as regras do projeto são claras: o jogador que faltar um dia que seja, sem justificativa, é desligado e a vaga é repassada a outro interessado. O palavrão não é bem-vindo em campo e tudo precisa ser resolvido na base do diálogo.
 

As dependências da quadra são entregues sempre limpas e organizadas. Os coletes utilizados precisam ser lavados pelos próprios atletas e entregues no mesmo dia ao educador social, Leonardo Souza, que também exerce a função de juiz nas partidas.
 


Alimentação e higienização pessoal


Além do esporte, a oficina de futebol debate diversos temas, como as questões ligadas à sexualidade, ao gênero, ao respeito à escolha do outro, ao uso e abuso de drogas, ao crime, dentre outras questões consideradas tabus.
A atividade continuada faz parte das ofertas do Centro Pop Leste, unidade municipal de atendimento diurno a mulheres e homens em situação de vida nas ruas, que oferta oficinas educativas, rodas de conversa, atendimento técnico socioassistencial, além de local para alimentação e higienização pessoal.
 

O equipamento é localizado no Bairro Floresta e funciona diariamente, sendo em tempo integral de segunda a sexta-feira, e em horário reduzido nos fins de semana e feriados. São atendidas diariamente, em média, 130 pessoas.