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Guarda Municipal Senilo Ornelas Queiroz
Foto: Telma Gomes/PBH

BH em Pauta: Guarda municipal se adapta à perda de visão

18/08/2017 | 18:33 | atualizado em 21/03/2018 | 14:38

O guarda municipal Senilo Ornelas Queiroz, de 57 anos, viu-se obrigado a reaprender a viver, há quatro anos, na condição de deficiente visual. A cegueira foi a sequela deixada por um tumor descoberto na glândula hipófise, localizada na cabeça. Ele perdeu a visão durante a cirurgia para a retirada do nódulo de cinco centímetros de diâmetro, por meio de uma laparoscopia. “Entrei enxergando e saí totalmente cego. Desde então, tive que reaprender a viver na nova condição. Decidi que iria me superar, não deixando que o problema fosse maior do que eu”, relembra.
 

Antes da reviravolta na vida, Senilo era casado e vivia com a esposa e o filho solteiro, hoje com 24 anos. A filha mais velha já era casada e havia lhe dado a única neta, que atualmente é uma garota de 8 anos. O ingresso na Guarda Municipal de Belo Horizonte ocorreu em 2006 e a vida seguia tranquila. Mas, desde a frequente dor de cabeça, o diagnóstico do tumor na hipófise e a cirurgia que ocasionou a perda total da visão, a mudança de rumos foi drástica, só não terminando de forma mais dramática devido à opção pela vida, feita por Senilo.
 

“O choque foi tão grande que fiquei cerca de quatro meses em completo desespero. Muito choro, desânimo e depressão. O autoextermínio é uma coisa que passa na cabeça de qualquer um, diante de um sofrimento muito grande, mas decidi viver e vi que não tinha outra opção a não ser lutar, e comecei a mudar o rumo das coisas”, relembra.
 

Na vida pessoal, a separação da esposa se tornou um segundo bague, mas a determinação em seguir adiante foi mantida, levando-o a ingressar no Instituto São Rafael, com o objetivo de aprender a se locomover sozinho, com o uso de bengalas. “Essa ida para o Instituto deu um upgrade na minha vida! Vi pessoas que estavam em situação muito pior que eu, mas permaneciam ali, sorrindo e tentando superar a falta da visão. Dediquei-me e com apenas duas semanas acabei dispensando as aulas e adotei a bengala como guia.”
 

Como Senilo já era um homem que sabia cozinhar, lavar e passar a própria roupa, o fato de somente ter que se adaptar à falta de visão na execução dessas tarefas possibilitou que ele recuperasse, cada vez de forma mais ampla, a independência. O fato de voltar a enxergar pelo menos os vultos ao redor foi outro impulso, reduzindo drasticamente os choques contra paredes ou outros obstáculos físicos, que ocorriam, sobretudo, no início da fase de adaptação.

 

Sentidos aguçados

 

Sempre sorridente na sede da Guarda Municipal, na avenida dos Andradas, no Centro de BH, Senilo conta que retomar a vida profissional foi uma decisão pessoal tomada desde o momento que decidiu lutar. “Fiquei 26 meses afastado, mas como já estava andando sozinho de metrô e tentando levar uma vida normal, na medida do possível, fiz minha última consulta de perícia em abril de 2016 e disse ao médico que não queria ser aposentado. Minha atuação como guarda nas ruas não seria viável, mas já tinha falado com o comando que gostaria muito de voltar a trabalhar em uma função que me tornasse útil. Quando pisei pela primeira vez novamente aqui na sede da Guarda Municipal, o comandante disse que já tinha um lugar para mim”, relata, emocionado.
 

Segundo Senilo, a perda da visão aguçou outros sentidos, principalmente o da memória e da audição. Isso fez com que ele se lembrasse de toda a estrutura física do prédio da sede, facilitando a locomoção no ambiente de trabalho. "Hoje trabalho no setor de qualificação profissional da Guarda Municipal, onde faço pesquisas, atendo ao telefone e direciono para o setor adequado, providencio senhas de e-mail para os guardas e fico encarregado da manutenção dos computadores, junto à Prodabel”, descreve.
 

TV

 

Atualmente, Senilo mora com o filho de 24 anos e mantém contato constante com a neta, que, segundo ele, já se adaptou à falta de visão do avô. “Como ela era muito nova no início, não entendia que eu estava sem enxergar e falava: “‘Não vovô, você está me vendo sim. Seu olho está normal!’ Hoje ela gosta de me conduzir pelas ruas e já assimilou bem a situação.”
 

Caseiro, Senilo conta que é ele quem cozinha e cuida das roupas em casa. A hospitalidade se estende também ao trabalho, onde é ele quem faz o café servido a quem visita o seu setor na Guarda Municipal. O hábito de “assistir” à televisão ainda é a opção preferida nos momentos de folga. Senilo conta que ouve a programação e monta todo um cenário na mente. “É uma atividade que me relaxa muito e me faz sentir muito bem.”

 

18/08/2017. Guarda municipal que perdeu visão supera dificuldades e continua trabalhando.Fotos: Telma Gomes/PBH