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Artista sorri para foto de braços abertos, mostrando quadros
Foto: Karen Moreira/PBH

BH em Pauta: A doce loucura da arte

08/06/2017 | 18:25 | atualizado em 21/06/2017 | 14:16

“A linha do risco é a linha da arte. A linha da criação. A linha onde tudo é processo e não tem conclusão...” Quem vê Naidna de Souza, usuária do Centro de Convivência Providência, recitando versos de autoria própria, não imagina que há 13 anos, quando passou a ser acompanhada pelo serviço, os olhos dela só fitavam o chão e poucas palavras saíam da boca. 

Hoje comunicativa e espontânea, a artista de 53 anos orgulha-se dos desafios que conseguiu superar e conta com alegria sobre como se sente livre. “Eu posso ser quem sou e gosto de ser assim. Eu faço muitos trabalhos aqui, mas o que eu mais gosto é de pintar e de fazer poesia. Desse jeito eu coloco para fora o que está na minha mente”, conta.

Essa é a proposta dos Centros de Convivência que utilizam recursos artísticos e culturais para resgatar a identidade, a autonomia e promover a (re)inserção do portador de sofrimento mental, possibilitando-os, como cidadãos e artistas, de poderem circular em grandes teatros, museus, feiras, cinemas, exposições e demais espaços da arte e da cultura. 

Estes locais são serviços substitutivos aos manicômios, ocupando um lugar estratégico na rede de saúde mental e recebendo portadores de sofrimento mental e pessoas em uso prejudicial de álcool e outras drogas, que já se encontram em tratamento por meio de outros dispositivos. Em toda a cidade, são nove unidades que atendem, no total, 1.500 pessoas - cerca de seis mil atendimentos por mês, quatro por pessoa, em média.

Em todas as unidades são realizadas oficinas de arte, dando aos usuários diversas opções para participar de atividades de produção cultural, de acordo com os interesses pessoais e aptidões de cada um. Além disso, são realizadas parcerias com escolas e empresas para qualificação, formação educacional e recolocação no mercado de trabalho. As iniciativas dão a oportunidade de recomeço para muitas dessas pessoas. Em alguns casos, a inserção no mercado de trabalho significa o início de uma nova jornada.

Antônio Eustáquio Guedes também é um dos usuários do Centro de Convivência Providência. Ainda jovem, ele apresentou um quadro de esquizofrenia e hoje se destaca na pintura. Com traços marcantes, as obras dele já ganharam corredores de algumas galerias da cidade em exposições e eventos. A história de Antônio é como a de muitas outras pessoas que por anos sofreram com os estigmas e a falta de informação por parte da sociedade. Mas, diferentemente de muitos, ele pode contar com a família, que o acompanha e incentiva. 

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Com um tratamento adequado, apoio e oportunidade, Antônio deu a grande virada da vida há dois anos. “Eu nunca imaginei que pudesse trabalhar. Mas, com 56 anos, assinaram a minha carteira pela primeira vez e agora eu trabalho como roupeiro em uma rede de laboratórios”. A contratação foi feita por meio de parceria da Prefeitura com uma empresa privada, que se preparou para receber pacientes dos serviços de saúde mental da cidade.

Os trabalhos de Naidna e Antônio fizeram parte do “Arte e Loucura no Circuito Liberdade”, e foram expostos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), durante os meses de abril, maio, junho e até o início de julho. 



Outra atividade promovida nos centros de convivência e que funciona como uma importante ferramenta de apoio aos tratamentos são as oficinas de música. O palco é democrático, dá espaço aos talentos individuais, mas também acolhe quem é mais tímido. 

Cristiano Gomes é um dos destaques da voz e violão. O jovem compositor de 37 anos sofreu na adolescência com abuso de álcool e drogas. “Eu gosto muito de compor porque eu falo dos meus sentimentos. Assim eu consigo colocar para fora o que está no meu coração”. 

Os conflitos familiares eram intensos. Hoje, ele fala da superação. “Estou em tratamento desde 2001 e se eu não estivesse aqui, talvez nem estivesse vivo. Eu superei muitas limitações criadas por mim mesmo. Superei timidez e me tornei uma pessoa muito melhor”, disse.

 


Tratamento em liberdade



A Política de Saúde Mental de Belo Horizonte segue as diretrizes da Reforma Psiquiátrica (Política Nacional de Saúde Mental) e os princípios da luta antimanicomial do Ministério da Saúde. O tratamento em liberdade, a busca pela reinserção social, pelo engajamento no próprio tratamento, a reconstrução da autonomia e identidade do indivíduo são princípios que norteiam o tratamento.