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Livros. Um aberto e um fechado. No livro aberto, as assinaturas dos alunos que escreveram cartas.
Foto: Lidiane SantAna/PBH

BH em Pauta: Cartas para Ana e Pedro

20/06/2017 | 15:19 | atualizado em 12/01/2018 | 15:04

Quem disse que as boas e velhas cartas não podem fazer a cabeça dos adolescentes de hoje? Prova irrefutável de que podem, sim, é um livro que reúne nada menos que 22 cartas escritas por um grupo de jovens estudantes ao longo de 2016. Resultado da VI Jornada Literária da rede municipal de educação de Belo Horizonte, “Cartas para Ana e Pedro” reúne correspondências escritas por alunos do oitavo ano da Escola Municipal Vinícius de Moraes, no bairro Tirol. 


Inspirado no livro “Ana e Pedro – cartas”, de Vivina Assis e Ronald Claver, o trabalho, que conta a história de dois jovens que se correspondem sem nunca terem se visto, conquistou o terceiro lugar no concurso na Jornada Literária 2016. “É muito bom ver que nosso trabalho foi semente e gerou frutos”, elogia Ronald. “Espero que os alunos superem suas próprias expectativas. As nossas eles superaram”, completa.
 

Com o desafio de descrever para Ana e Pedro nas cartas os encantos das cidades de Minas Gerais, os jovens buscaram informações em diversas fontes. Muita leitura, além de conversas com os familiares, oficinas, exibição de vídeos, pesquisas na internet e viagens fizeram parte do processo de imersão no tema. “Em uma época de mensagens rápidas, o gênero carta nos desafiou”, admite a professora coordenadora do projeto na escola e organizadora do livro, Maria das Mercês Vieira. 


A professora Walquiria Castro conta que a leitura do livro “Ana e Pedro – cartas”, no qual foi inspirado todo o trabalho, também foi feita nas aulas de ciências. “Ele se inseriu de forma muito natural no nosso projeto de leitura, escrita e sexualidade”, justifica. E para a imaginação alçar voos ainda mais altos, não se limitaram aos muros da escola. Além das várias atividades didáticas em sala, também promoveram vivências como a visita às cidades de Ouro Preto e Mariana.
 

O desafio de reunir os fragmentos de tudo isso em textos coesos mobilizou os jovens e professores da escola. Foram muitas escritas e reescritas até que se dedicassem ao próximo desafio: dar forma ao livro, diagramando textos e ilustrações feitos pelos próprios alunos. Cerca de 160 estudantes do 8º ano e oito professoras, além da agente de informática, o bibliotecário e a auxiliar de biblioteca se envolveram diretamente no projeto.
 

Além de destinadas aos leitores do livro, as cartas também cumpriram a função inerente delas: a de serem enviadas por meio dos Correios. Uma a uma, foram endereçadas e postadas para o autor. 


O resultado

“O aprendizado foi indiscutível. Os estudantes se assenhoraram da estrutura do gênero carta, enriqueceram o vocabulário, conheceram mais recursos de coerência e coesão, bem como o processo de diagramação do livro”, avaliam as professoras de língua portuguesa Margareth Venâncio e Raquel Dutra. 
 

O reconhecimento e a satisfação de ter gerado um produto final, além dos novos conhecimentos, somaram-se aos ganhos dos alunos. Em uma solenidade realizada no Sesc Paladium no dia 18 de maio, eles receberam certificados das mãos da secretária municipal de Educação, Ângela Dalben.


Durante o evento foram expostos os mais de 80 livros classificados de 1º a 5º lugares em três categorias. Cerca de 500 alunos de 74 escolas municipais participaram da cerimônia. O clima era de festa no ônibus que levava os alunos da Escola Municipal Vinícius de Moraes. “Servimos lanches individuais durante o trajeto e no retorno à escola os alunos foram recebidos com um almoço especial”, conta a diretora da escola, Giovanna Junqueira, grande entusiasta do projeto.
 

A coordenadora da Jornada Literária na Secretaria Municipal de Educação, Anna Eliza Oliveira, afirma que 81 livros foram entregues nas três categorias. “Um recorde desde 2011”, comemora. E o avanço não é só em termos de quantidade, mas também de qualidade. “As escolas estão se profissionalizando. A verba é disponibilizada e todo o processo de produção dos livros é feito nelas”, destaca. 
 

 

Dia de autógrafos

20/06/2017. Lançamento do livro Cartas de Ana para Pedro.Fotos: Divulgação/PBH



O lançamento do livro foi feito no auditório da escola, no dia 20 de maio passado. Um banner com a capa do livro dava as boas-vindas ao público. Expostos na mesa de entrada, os exemplares atraíam olhares de curiosidade e satisfação.
 

O escritor cuja obra tanto inspirou os jovens autores fez questão de prestigiar o evento: “É muito gratificante encontrar uma turma que gosta de ler e escrever em um país onde se lê tão pouco”. “Quem gosta de escrever tem que ler. Crie um diário e escreva 20 linhas todos os dias”, sugere Ronald.
 

Na cerimônia, os alunos foram chamados um a um para darem início à sessão de autógrafos. A emoção de pegar um livro com o próprio texto ou ilustração impressos era evidente nos olhares. Cada livro foi sequencialmente passando de mão em mão e recebendo a assinatura dos autores e ilustradores.
 

Pais e amigos dos alunos compartilharam a vitória com eles. Os olhos de Vanderléia e Fabiano Fialho, pais de Vitória, de 13 anos, brilhavam ao ver o resultado do trabalho. “Lembro-me dela escrevendo. Refez várias vezes e sempre lia para eu opinar. Comemoramos juntas no dia em que o texto foi selecionado”, dizia a mãe, enquanto relia o texto da filha impresso na página 75 do livro. “Se todas as escolas fizessem trabalhos como esse seria ótimo”, elogiava Fabiano.


“Eu leio, inspiro-me e conto”

Concluída mais uma obra, a escola já trabalha para iniciar um novo processo. Tanto que aproveitou a cerimônia de entrega dos livros para fazer o lançamento da Jornada Literária 2017. “Entramos na Jornada para não sair mais”, garante Mercês.
 

Além de contemplar os alunos do 2º e 3º ciclos do Ensino Fundamental, nesta edição a Jornada Literária será estendida para estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O tema da Jornada Literária 2017 é "Eu leio, inspiro-me e conto".
 

Ronald estará junto mais uma vez. “Vou ministrar oficinas para os professores”, comprometeu-se ele. Quem ganha é toda a comunidade escolar. “A Jornada Literária agrega professores e demais trabalhadores da escola, e, principalmente, é um projeto que mobiliza os estudantes, dando um novo sentido à leitura e à escrita na sala de aula”, conclui Mercês.