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Morador em situação de rua abraça servidor e mostra desenho em folha branca. Os dois estão sentados no chão
Fotos: Divulgação/PBH

Abordagem garante direitos às pessoas em situação de rua

02/01/2018 | 15:04 | atualizado em 05/01/2018 | 13:02

  Um serviço que escuta a demanda de cada pessoa com trajetória de rua, respeitando sua individualidade e buscando construir conjuntamente uma proposta de superação dessa situação. Esse é o Serviço Especializado em Abordagem Social, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania. Um trabalho de busca ativa, que identifica a presença de pessoas vivendo nas ruas e auxilia no acesso a direitos. Com atuação em toda a cidade, por meio de equipes distribuídas nas nove coordenadorias regionais, o serviço é realizado em parceria com entidade socioassistencial conveniada com a PBH.
 

Os profissionais, das áreas de Ciências Humanas e Artes, abordam as pessoas em situação de rua, nos turnos da manhã, tarde e noite, procurando criar um vínculo de confiança e, a partir de então, construírem juntos um caminho de superação das vulnerabilidades e riscos. Busca-se, através desse contato, ouvir as pessoas, entender seus desejos, demandas e necessidades, para inseri-las nos serviços públicos da cidade, como saúde, educação, habitação e cultura, entre outros.
 

Edivaldo Anastácio, técnico de uma das equipes de abordagem, explica que a escuta é parte fundamental do trabalho porque permite entender o que a pessoa quer e auxiliá-la a acessar direitos, sem imposições. “Cada pessoa tem um desejo, e é necessário entender que não existe uma padronização. O serviço de abordagem faz a ponte entre várias políticas que ajudam o usuário a superar a situação de rua. Essa superação é uma construção feita juntamente com a pessoa, de acordo com aquilo que ela manifesta, respeitando a sua história”, pondera.
 

Edivaldo destaca ainda as exigências da função. “O trabalho exige da gente uma contínua qualificação para o atendimento, porque a vida nas ruas é um fenômeno bastante complexo. A gente lida com trabalho infantil, com pessoas que sofreram violências. Tem o público LGBT, que está sujeito a muitas violências também, temos crianças e adolescentes, idosos, mulheres grávidas. Cada pessoa tem sua especificidade, e precisamos estar prontos para entender suas necessidades e garantir que ela acesse seus direitos”.
 

Atualmente, as equipes de abordagem contam com 66 técnicos de diferentes áreas, entre psicólogos, assistentes sociais, historiadores e outros; seis arte-educadores e nove educadores par; além de 18 funcionários divididos nas áreas de gestão, administrativa e logística. De janeiro a novembro de 2017, foram abordadas 4.181 pessoas, executando um orçamento de 4.034.565,00 reais previsto para o ano.

 

A conquista da confiança

Cada pessoa acompanhada pelo Serviço Especializado em Abordagem Social responde de uma determinada forma e dentro de um tempo próprio. Estabelecer um vínculo de confiança é um trabalho complexo e delicado, que exige habilidade e persistência do profissional que o realiza.
 

Entre os profissionais que compõem as equipes de abordagem, destaca-se a figura do educador par, um membro da equipe que teve ou tem trajetória de vida nas ruas. Sua presença é importante para transmitir confiança para a pessoa que será abordada, já que tem uma vivência próxima e dá legitimidade àquilo que é ofertado.Renata Ferreira dos Santos tem trajetória de vida nas ruas e, desde o início do ano, integra uma equipe de abordagem na Regional Centro-Sul. Ela ressalta a dificuldade de estabelecer um vínculo com alguém que desconhece a vivência nas ruas e que a presença do educador par facilita essa aproximação. De acordo com ela é muito difícil para uma pessoa que está vivendo nas ruas se abrir com um desconhecido. “Quando a equipe técnica aborda as pessoas, elas custam a se abrir, custam a falar. Mas, como a gente já esteve na mesma situação é mais fácil. Eles confiam mais em quem já foi ‘da pista’”. Renata explica que quem vive na rua tem muito medo. “A gente não sabe se a pessoa que vem falar com a gente, vem com boa intenção. Aí quando tem alguém que já passou pela rua falando que é uma coisa boa, eles se abrem muito mais, deixam de ter medo”, relata.
 

Renata foi abordada por uma equipe, através da qual teve acesso a uma vaga na República Maria Maria, uma moradia provisória para mulheres, conveniada com a Prefeitura, onde vive atualmente. Está frequentando a Educação de Jovens e Adultos para concluir o ensino médio e se preparando para prestar vestibular para Veterinária. Com o trabalho no serviço de abordagem, ela tem uma fonte de renda fixa e planeja alugar uma casa para morar sozinha.
 

Além do educador par, cada equipe conta com dois técnicos socioassistenciais, um de cada gênero, e um arte-educador que utiliza a arte como estratégia de aproximação e conquista de confiança. O arte-educador se destaca no trabalho de sensibilização e construção de vínculos, sobretudo com as crianças e adolescentes, realizando atividades artísticas e pedagógicas, minimizando a resistência ao trabalho dos outros técnicos da equipe.

 

Outras ofertas para a população de rua

Além do serviço de abordagem, a Prefeitura conta com equipamentos de referência para pessoas em situação de rua, como os Centros Pop Leste e Avenida do Contorno, que são locais de atendimento diurno, onde os usuários tomam banho, lavam roupas, participam de oficinas, recebem atendimento psicossocial, entre outras atividades. Já o Centro Pop Miguilim presta esse atendimento para crianças e adolescentes de 6 a 17 anos.
 

A cidade conta ainda com duas unidades que podem ser acessadas para pernoite: os albergues Tia Branca e São Paulo, com 400 e 200 vagas, respectivamente. Já os abrigos e repúblicas oferecem cerca de mil vagas de moradia temporária para as pessoas em situação de rua e famílias oriundas de áreas de risco.
 

Outras duas unidades da moradia Anita Gomes dos Santos que oferecem 119 vagas, funcionam como uma residência, na qual os moradores recebem alimentação integral, com café da manhã, almoço e jantar.
 

Nesses equipamentos, as pessoas são acolhidas por técnicos especializados, encaminhadas e acompanhadas, a partir de suas necessidades, a serviços públicos de saúde, educação, qualificação profissional, segurança alimentar e nutricional, habitação (Programa Bolsa Moradia), transferência de renda (Programa Bolsa Família), emissão de documentos, e outros, para auxiliar na reorganização do seu processo de retomada de vida para caminhar com autonomia.