22 June 2026 -
Implementado no final de 2025 e ampliado para toda a rede municipal de ensino neste ano, o projeto União de Mães Atípicas (UMA) é voltado a famílias de estudantes com deficiência. Propõe a criação de um espaço seguro dentro das instituições de ensino para mães e responsáveis compartilharem sentimentos, trocarem experiências e fortalecerem o vínculo com a comunidade escolar. A iniciativa é da Secretaria Municipal de Educação (Smed), em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos.
São rodas de conversa mensais, conduzidas pela Equipe PAS (psicólogo e assistente social) e professor de Atendimento Educacional Especializado (AEE), com a proposta de promover escuta ativa, apoio emocional e criação de uma rede de cuidado, apoio e amizade. A iniciativa está sendo realizada em quase todas as instituições da rede — aquelas com um grupo reduzido de mães atípicas realizam rodas em conjunto com outras escolas próximas.
“A mãe atípica também precisa de apoio. Não é fácil, não”. O desabafo é de Lidiane Renata de Amorim, de 44 anos, cuja jornada na maternidade é marcada pela dedicação ao filho Gabriel, de 6 anos. Estudante do 1º ano na Escola Municipal Jonas Barcellos Corrêa, no Barreiro, Gabriel tem diagnóstico de autismo nível 1 e de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Lidiane relata que o diagnóstico foi um “alívio”, pois permitiu finalmente compreender as necessidades do filho e buscar seus direitos. Antes dessa clareza, ela enfrentou anos de incertezas, noites com apenas duas horas de sono e o peso do julgamento social, como em um episódio de crise do filho no aeroporto. “Uma vez a gente estava viajando, ele não era diagnosticado ainda e deu uma crise no aeroporto. Uma mulher ficou tão brava por causa do choro, e eu não tinha como fazer mais nada”, desabafa.
Como no caso de Lidiane, a jornada até o diagnóstico de um filho atípico muitas vezes não é linear ou leve, e aprender a lidar com o julgamento da sociedade é desafiador. Muitas mães relatam a sensação de estar sozinhas nessa travessia da maternidade.
Rede de apoio
A gerente de Articulação com a Assistência Social da Smed, Ana Raquel Oliveira Freire Âmbar, explica que famílias (especialmente mães) de estudantes atípicos têm uma vida fortemente voltada para o cuidado da criança, e muitas vezes com pouca ou nenhuma rede de apoio para essa dedicação. Esse contexto pode ser desgastante para cuidadores, especialmente quando não têm espaço ou tempo para cuidar também de si.
“E é importante reconhecer que as mulheres ocupam majoritariamente esse lugar de cuidado, essa é uma realidade estrutural”, diz Ana. Por isso, apesar de ser aberto a todos os familiares, o nome do projeto é União de Mães Atípicas (UMA).
As pautas variam de encontro para encontro, pois dependem das demandas dos grupos. “Muitas dessas mães chegam até nós carregando um peso profundo de angústia e culpa. O nosso papel no projeto é estar presente para o que vier: as demandas e sentimentos vão surgindo espontaneamente e nós buscamos oferecer o acolhimento necessário", comenta o psicólogo Leonardo Santos, da Equipe PAS da Emei Nova Esperança (região Nordeste).
Além do espaço para escuta qualificada, há propostas de oficinas de autocuidado e autoestima, atividades de criação de redes de apoio comunitário e envolvimento das famílias na construção de práticas pedagógicas inclusivas.
A Emei Nova Esperança tem muitos planos para o futuro do projeto. “Planejamos ir ao parque, fazer festa de aniversário dos estudantes, piqueniques e conversas sobre os direitos da família”, comenta Vilma Araújo, psicóloga do Projeto PAS.
Resultados
Na Escola Municipal Jonas Barcellos Corrêa já são observados resultados positivos. Para a assistente social da escola, Iris Saraiva, há uma melhoria no relacionamento das famílias atípicas com a escola. “Hoje elas mantêm um bom diálogo com a escola e compreendem que, junto à instituição, podem fazer um trabalho melhor”.
Fernanda Aguilar, mãe da Helena, de 6 anos, participou do encontro pela primeira vez em abril. Com uma filha diagnosticada com TDAH e autismo, Fernanda buscou o projeto depois de enfrentar um difícil processo de aceitação do diagnóstico e temer um possível bullying em uma escola de grande porte. Para ela, o suporte da escola é fundamental para o bem-estar das famílias. “Quando teve esse projeto dentro da escola, eu aplaudi, porque a gente percebe que não está sozinha”, desabafa.
Política Municipal de Cuidados
O Projeto UMA está inserido no contexto das discussões do cuidado como direito em Belo Horizonte. Por meio da Política Municipal de Cuidados, a Prefeitura tem construído, desde 2023, ações que apoiem tanto quem necessita de cuidado quanto quem cuida, de maneira intersetorial. A diretora de Políticas de Cuidado, Simone Pegoreti, explica a importância de iniciativas como o Projeto UMA.
“Ele parte do reconhecimento de que existe uma profunda interdependência entre quem cuida e quem é cuidado. Quando uma mãe atípica está sobrecarregada, sem apoio e sem espaços de acolhimento, isso impacta diretamente sua saúde, sua autonomia e também o desenvolvimento e o bem-estar da criança ou adolescente”, afirma.
Ela relembra que, historicamente, o cuidado foi tratado como uma responsabilidade privada das mulheres, muitas vezes exercido de forma solitária e invisibilizada. “O que buscamos com iniciativas como essa é justamente reconhecer e valorizar essas trajetórias, construindo redes de apoio mais solidárias entre escola, serviços públicos, famílias e comunidade. O Projeto UMA é importante, porque cria espaços de escuta, troca e fortalecimento para essas mães, afirmando que quem cuida também precisa ser cuidado”, conclui.
