6 August 2026 -
"Sou pai e mãe", diz Sidney Lopes, 73 anos, na entrada da Escola Municipal de Ensino Especial Santo Antônio, minutos antes de ver a filha Paula, de 38, entrar para mais um dia de aula. Ele construiu essa rotina desde que a esposa morreu de câncer, em 2007. Sidney, jornalista aposentado, é um dos pais de alunos da escola que assumiram sozinhos o cuidado de filhos com deficiência intelectual.
Outro exemplo é José Carlos Reis, autônomo, que desde a morte do pai assumiu a paternidade do irmão Luiz Henrique, de 60 anos. Além da atenção em casa, vai à escola duas vezes por semana acompanhar a sua rotina. Histórias como essas ganham novo significado neste Dia dos Pais, celebrado em 9 de agosto.
Levantamento do Sistema de Gestão Escolar (SGE) mostra que, entre os cerca de 184,6 mil estudantes da rede municipal de Belo Horizonte, 15,3 mil não têm o nome do pai registrado, o equivalente a 8,3% do total, ou quase um em cada 12 alunos. Diante desse cenário, escolas como a Santo Antônio têm optado por substituir as comemorações tradicionais do Dia das Mães e do Dia dos Pais pelo Dia da Família, valorizando diferentes arranjos de cuidado e afeto.
Para a diretora da Escola Municipal de Ensino Especial Santo Antônio, Andreia Teixeira Magalhães Costa, histórias como as de Sidney e José Carlos reforçam a decisão de repensar as datas comemorativas tradicionais. "Esses dois pais, que acompanham de perto a rotina dos filhos na Santo Antônio, são exemplos de como a participação paterna impacta diretamente na inclusão e na aprendizagem", afirma.
Segundo ela, "quando os dois responsáveis estão juntos, tudo se torna mais fácil. Mas também é possível que famílias conduzidas por mães ou pais solos alcancem sucesso. O essencial é a responsabilidade e o compromisso com o estudante", destaca a diretora.
Sidney assumiu sozinho o papel de pai e mãe, garantindo que Paula aprendesse a fazer suas próprias tarefas. "Ela conseguiu aprender tudo, graças a Deus. Tem autonomia, troca-se sozinha, entende tudo", conta, emocionado. A rotina da família inclui passeios à praia, cavalgadas, viagens para Macacos e brincadeiras com a cachorra Tuca, companhia inseparável de Paula, que também é apaixonada por animais, ônibus e atividades ao ar livre.
A Escola Municipal de Ensino Especial Santo Antônio é outro pilar fundamental na rotina de Paula. Sidney destaca o acolhimento dos professores e diretores, que oferecem suporte e inclusão. "A escola é fantástica. Ela acorda cedo, adora ir, é muito bem tratada. Isso me dá tranquilidade", afirma. O ambiente escolar proporciona socialização e reforça a autonomia de Paula, que participa de festas, dança e convive com colegas em clima de respeito e amizade.
Para Sidney, a paternidade é um desafio constante, mas também uma missão de amor. "Ser pai e mãe é difícil, mas eu faço tudo por ela. Aprendi que é só querer. A presença do pai é importante demais", reflete. Entre consultas médicas, passeios e momentos de lazer, Sidney e Paula constroem uma história de resiliência e afeto. "Nosso trabalho está sensacional. A escola foi uma surpresa maravilhosa, e Paula é feliz. Isso é o que importa", conclui.
Presente em pequenos gestos
Desde a morte do pai, José Carlos Reis assumiu integralmente os cuidados do irmão, Luiz Henrique, de 60 anos. Com a mãe idosa morando com uma das irmãs, coube a ele a responsabilidade de acompanhá-lo na rotina diária.
Duas vezes por semana, José Carlos leva Luiz à escola e permanece durante a tarde na Sala das Mães, espaço de convivência criado pela Escola Municipal de Ensino Especial Santo Antônio para acolher familiares e responsáveis que acompanham os estudantes. Mais do que um local de espera, o ambiente simboliza o compromisso da instituição de ensino com o acolhimento e o reconhecimento das diferentes configurações familiares.
Assim como Sidney, José Carlos demonstra que a presença se constrói nos detalhes do cotidiano. Entre terapias, reuniões escolares, desafios e conquistas, ambos revelam que cuidar é também estar ao lado: levar e buscar, acompanhar atividades, incentivar a autonomia, celebrar avanços e oferecer apoio constante. Gestos que podem parecer simples, mas que representam amor, compromisso e fazem toda a diferença na trajetória de cada estudante.
Acolhimento e apoio
Localizada nas dependências da Escola Municipal de Ensino Especial Santo Antônio, a Sala das Mães é um espaço dedicado ao acolhimento, à escuta e ao fortalecimento dos vínculos entre as famílias e a escola. Embora o nome faça referência à predominância feminina entre os frequentadores, muitas delas mães solo, o espaço é aberto a todos que participam da vida dos estudantes. Pais, irmãos, tios, avós, primos e até vizinhos encontram ali um ambiente de convivência, troca de experiências e apoio mútuo.
Entre essas histórias está a de Estefânia Soares Teixeira, que encontrou no marido, Carlos, e no filho, Richard, parceiros fundamentais no cuidado da sobrinha Shirley, pessoa com Síndrome de Down. Ela conta que assumiu o acompanhamento da sobrinha quando estava casada havia apenas um ano. Desde então, o acolhimento do marido e o vínculo construído entre Shirley e Richard ajudaram a fortalecer a família.
Há quase dois anos, Liliane Caetano também encontrou na Escola Municipal de Ensino Especial Santo Antônio um novo começo. Mãe de Ana Carolina, de 20 anos, diagnosticada com autismo nível 3 de suporte, enfrentou dificuldades em outra instituição de ensino antes de chegar à escola municipal. “Aqui eu pude voltar a viver. Antes, já estava desistindo de levá-la à escola”, afirma.
O acolhimento recebido transformou não apenas a trajetória educacional de Ana Carolina, mas a vida da própria Liliane. Incentivada pela comunidade escolar, ela retomou os estudos, concluiu o ensino médio na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e já se inscreveu no Enem, com o objetivo de ingressar no ensino superior.
Dedicação à família
A força das redes de cuidado também aparece na história de Luciene Conceição Batista. Três vezes por semana, ela acompanha Tatiana, filha de sua vizinha, às atividades escolares. O gesto surgiu em um momento delicado para a família, quando o pai da jovem foi diagnosticado com Alzheimer, dificultando o acompanhamento da filha e colocando em risco sua permanência na escola.
Sensível à situação, Luciene se ofereceu para ajudar e garantiu que Tatiana continuasse frequentando as atividades, preservando não apenas seu vínculo com a escola, mas também suas oportunidades de convivência e aprendizagem. Além de apoiar a vizinha, Luciene encontrou na Sala das Mães um espaço de amizade e acolhimento. Entre conversas, atividades de artesanato e momentos de partilha, descobriu uma forma de aliviar as próprias preocupações.
As histórias que se encontram diariamente na Sala das Mães refletem a proposta da Escola Municipal de Ensino Especial Santo Antônio de reconhecer e valorizar as diferentes configurações familiares. Mais do que um espaço de espera, o local se tornou um ponto de encontro onde vínculos são fortalecidos, experiências são compartilhadas e redes de apoio são construídas.
A diretora Andreia ressalta que essa visão está alinhada à escolha da escola de celebrar o Dia da Família, em vez de datas específicas como Dia das Mães ou Dia dos Pais. “Temos alunos que vivem com avós, tias, primos, irmãos e também casos de pais que assumiram integralmente o cuidado dos filhos. Quando abrimos espaço para o diálogo e para a escuta, fortalecemos não apenas a relação do estudante com a escola, mas também os laços familiares que sustentam seu desenvolvimento”.
