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BH em Pauta: Rainhas da Agulha

22/06/2017 | 15:57 | atualizado em 26/06/2017 | 16:38

Três vezes por semana as máquinas estão a todo vapor. Enquanto uns modelam, outras cortam, arrematam, costuram e transformam retalhos em bolsas coloridas e cheias de estilo. Assim tem sido boa parte do cotidiano das Rainhas das Agulhas, nome escolhido para 30 moradores dos Residenciais Serras de Minas I e II e também da região do Vale do Jatobá, que participam do Núcleo Produtivo e Oficina Permanente de Corte e Costura, todas as segundas, terças e quartas. 
 

Os apartamentos fazem parte do programa “Minha Casa Minha Vida” e foram entregues pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (Urbel). Desde então, diversas atividades de pós-morar foram iniciadas com a comunidade local para facilitar a adequação das 580 famílias a uma nova realidade. As ações são desenvolvidas por técnicos sociais da Urbel, com a finalidade de possibilitar a integração e o desenvolvimento local, o fortalecimento da comunidade a partir da geração de trabalho e renda e a inclusão social dos novos moradores.
 

De acordo com Simone Vidal, contratada pela Urbel para supervisionar o trabalho técnico social no Serras de Minas, o grupo foi criado em outubro do ano passado e surgiu a partir de um diagnóstico realizado para levantar as diversas demandas da comunidade. No início, eram sete pessoas e a proposta já era capacitá-las dentro do Economia Solidária, um programa do Governo Federal, para fortalecer o grupo e torná-lo permanente. “Buscamos esse programa porque ele dá um bom suporte, pois é preciso conhecer a política, os pré-requisitos, o setor a ser trabalhado, participar da formação dos núcleos e encontros nos fóruns. Queremos que esse grupo seja autônomo e protagonista de suas histórias”, afirmou Simone. 
 

Oficineiro contratado, Aelson Pereira é conselheiro e coordenador do Fórum Municipal do Economia Solidária e destaca o potencial do grupo. “Além da prática do corte e costura e a participação em feiras, eles estão aprendendo a ser empreendedores com esse programa, que ainda prevê cursos sobre fundos de caixa, estoque e marketing”, detalhou.
 

Outro ponto importante colocado pelo professor é que o trabalho social desenvolvido pela Urbel vai ao encontro do que propõe o programa, já que extrapola a questão da renda ao considerar a realidade das pessoas e o ambiente em que vivem. “Tem muita gente que vem de situações complicadas, com baixa autoestima e até adoecidas”, contou. 
 

Antes de entrar para o grupo, o senhor Antônio José da Silva já era modelista e durante mais de 14 anos  fabricou sapatos e bolsas em uma casa alugada no bairro Aparecida. Ele não esconde a alegria de ter ganhado o tão sonhado apartamento, onde mora atualmente com a esposa, mas para se mudar teve que abrir mão do seu maquinário. 
 

“Eu não tenho vergonha de dizer que chorei muito quando recebi as chaves do meu apartamento, mas depois eu fiquei muito triste, sem ter onde colocar as minhas máquinas, pois o aluguel ficaria muito caro”, explicou. Agora, ele diz ver uma luz no fim do túnel e acredita em um recomeço. “Eu já penso em fazer algumas bolsas pra vender aqui e ali. A equipe é muito boa e, se Deus quiser, a produção vai aumentar e vamos ganhar um troco”, afirma, confiante.
 

Dona Maria José Cordeiro também está animada com a oficina, mesmo sendo tudo uma novidade para ela. “Eu nunca tinha trabalhado com costura antes, mas estou indo até bem. A gente brinca e se diverte muito, e se aqui já é ótimo assim, imagina quando a produção melhorar?”, perguntou, empolgada. 
 

A aluna vive hoje com a neta no novo apartamento, mas já morou com outros familiares de favor durante muito tempo. “Fiquei muito emocionada e passei até mal quando ganhei minha casa, pois esperei oito anos para isso acontecer. E, agora, essa benção para ajudar e melhorar a vida da gente. Quando se chega uma certa idade, precisamos ter o nosso cantinho e ocupar a nossa cabeça pra esquecer os problemas. E é isso que está acontecendo!”, comemorou a moradora.