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Cinco crianças, duas garotas e três garotos, três delas com flautas, próximos à mesa de xadrez de jardim, em lugar aberto.
Foto: Karen Moreira/PBH

BH em Pauta: Oficinas de música mudam realidade de crianças

17/08/2017 | 14:37 | atualizado em 21/08/2017 | 13:31

Uma aquarela musical enche a sala até então vazia e silenciosa. As notas vão fluindo com melodias que expressam muito mais do que letras de canções conhecidas. Aos poucos, crianças e adolescentes começam a demonstrar através da música um turbilhão de sentimentos tão comuns nesta fase da vida. E é assim, com o sopro da flauta e o compasso da percussão, que a oficina de música do projeto Arte da Saúde vem transformando vidas na região Norte da cidade.
 

Atualmente, cerca de 60 alunos fazem parte desta turma que se encontra semanalmente nos turnos da manhã e tarde, no Centro Cultural São Bernardo. O grupo é diversificado em gênero e idade, com crianças de 6 a 18 anos. Entre elas está Cynthia Thais Cardoso, aluna do 2º ano do ensino médio. A adolescente, que há três anos participa das oficinas, diz que para estar ali precisou enfrentar a timidez e o desconhecido. “O início foi difícil porque eu achei que não ia conseguir. Eu era muito tímida, não conversava com ninguém e também era difícil aprender a tocar. Mas depois eu fui pegando jeito e gostando cada vez mais. Aqui a gente aprende muita coisa. Se eu não estivesse no grupo, poderia estar em outros caminhos, fazendo coisa errada.”
 

E esta concepção é real na vida da maior parte desses pequenos artistas. Onde muitas vezes faltam oportunidades de protagonizar a própria história, o Arte da Saúde se insere proporcionando a socialização através de atividades e oficinas culturais e o cuidado integrado à crianças e adolescentes em situação de risco social e em sofrimento mental.
 

A coordenadora do projeto na Regional Norte, Vanilza Rodrigues dos Santos, explica como essa relação é construída na prática. “O nosso objetivo é ofertar um espaço de convivência, de cultura e de cidadania, onde podemos desenvolver potencialidades. Nós recebemos muitas crianças e adolescentes fragilizados e inseridos em um contexto de vulnerabilidade, e o Arte da Saúde pretende ser este espaço de construção, de formação humana, formação cidadã e de acolhimento para eles”, explica.
 

A monitora da turma, Poliana Soares da Silva, tem um papel importante para o sucesso do projeto. Mais do que ser responsável pelas aulas de flauta, ela atua como um elo entre o grupo e a assistência. O olhar apurado dela é fundamental para ajudar a identificar as necessidades de cuidado de cada aluno. Participante do grupo, Gabriela Rodrigues Sales, de 13 anos, já percebe esse papel exercido por Poliana no dia a dia do grupo. “Ela conversa, dá conselhos, chama atenção quando precisa. Não é só ensinando tocar flauta que ela ajuda a gente”, conta.
 

E é a partir desta vivência que a intersetorialidade funciona dentro do projeto, com intervenções da Saúde, Educação e/ou Assistência Social. Para Poliana, o projeto consegue alcançar patamares diferenciados. “Eu dou aulas em outras instituições, inclusive particulares, mas o Arte da Saúde é diferente. Aqui a gente consegue trazer vida para a vida dessas crianças. Em meio a tantas dificuldades, aqui elas conseguem sorrir e se desligar de uma realidade que às vezes é tão dura, e, de certa forma, também as ajuda a enfrentar essas situações”, acrescenta Poliana.

 

 

Para além dos ensaios

 

Atualmente, cerca de mil crianças fazem parte do projeto, que está presente nas nove regionais da cidade. Para participar, as crianças e os adolescentes devem ser encaminhados pelo centro de saúde de referência, através da Equipe de Saúde da Família (ESF), da equipe de Saúde Mental ou do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF).
 

Os serviços de Políticas Sociais – Centros de Referência da Assistência Social e Centros de Referências Especializados de Assistência Social e Rede Municipal de Educação (via Programa Saúde na Escola) – também podem fazer o encaminhamento. Em alguns casos, o programa também acolhe crianças e adolescentes que buscam diretamente as oficinas em caráter de demanda espontânea.
 

Só ensaiar não foi suficiente e o desejo de ir além com a música fez esse grupo de jovens artistas sonhar alto. A proposta deles para o projeto foi a gravação de um CD. O primeiro álbum foi lançado em 2011 e custeado com recursos da Secretaria Municipal de Saúde, destinada para o Arte da Saúde. Intitulado “Sol de Todo Dia”, o projeto foi concebido no decorrer do trabalho e demandado pelos próprios alunos, que queriam fazer algo mais com tudo o que eles já haviam aprendido. O segundo álbum do grupo já está sendo preparado e deverá ser lançado no mês de outubro deste ano.
 

 

17/08/2017. Arte na Saúde. Fotos: Divulgação/PBH