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Jovem aluno e mulher de idade que fazem parte do Programa de Educação de Jovens e Adultos do Barreiro estudam sentados.
Foto: Divulgação PBH

BH em Pauta: Escola Diferente

27/06/2017 | 16:16 | atualizado em 12/01/2018 | 15:07

Livros dentro da geladeira... Aluno que vira professor... Ex-aluno que volta pra ajudar... Artista voluntário... Aluno enrolado com durex... Mãe que vai pra escola por indicação do filho... Enfim, uma escola ‘diferentona’! Assim Joice Trindade, de 17 anos, define a turma do Programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da qual é aluna. A turma é vinculada à Escola Municipal Ana Alves Teixeira, mas as aulas são realizadas na Escola Estadual Dr. José do Patrocínio Fontes, uma parceria que visa a atender aos moradores do bairro Milionários.
 

Relacionamento e proximidade são as apostas da professora Ana Maria Macedo para manter na escola quem havia interrompido os estudos e resolveu dar-se uma segunda chance. “Quem resolve voltar depois de muito tempo longe da escola precisa ser muito bem cuidado, trazido para perto, senão ele não volta, ou volta sem vontade de ficar”, justifica. “Nenhuma escola é igual à nossa. O tratamento é diferente, tanto entre os professores quanto deles para com os alunos”, garante Joice.
 

Assim, o fazer pedagógico dessa turma é intensamente permeado pelo cuidado afetivo. “Trabalhamos, por exemplo, o livro O Pequeno Príncipe para falar do cuidado com o outro e construirmos um efetivo exercício de ajuda mútua”, explica Ana. E a lição constitui-se também de exercícios práticos. “A Ana não se limita a entrar na sala e passar matéria no quadro. Ela já nos trata diferente desde a chegada. Ao nos encontrar no corredor, nos dá um beijo e entramos na sala de mãos dadas”, conta Jonas Rosa de Andrade, aluno de 2014.
 

Desempregado, ele não hesitou em procurar a professora e se disponibilizar para ajudar nas aulas. “O vínculo, para nós, é de fato importante. Fazemos questão de manter as portas abertas para os ex-alunos”, garante a professora.
 

No Projeto Estrada de Formação, eles são convidados a traçar uma linha do tempo a partir da data de nascimento e a contar os caminhos que percorreram. “Trabalhamos a construção da referência da identidade de cada aluno com base no que têm de melhor”, detalha Ana. O resultado? Eles passam a enxergar as próprias potencialidades. “Aprendi que tenho dom para dar aula de fuxico. Acabei sendo promovida a professora”, diz Dagmar Vieira, 50. O ganho de autoconfiança reflete diretamente na forma como lidam com o conteúdo didático. “Fugi da escola por causa da matemática. Mas agora consegui aprender”, garante Dagmar.
 

O fato é que, se por um lado Dagmar ensina a ‘fuxicar’, por outro recebe ajuda dos colegas para lidar com a matemática. O clima é de colaboração. “Promovemos discussões sobre formas de cuidar, cativar e fazer a diferença”, afirma a professora. “Fazemos mutirão de leitura, para um ler para o outro, e grupos de estudo de matemática”, descreve. Os colegas têm entre 15 e 85 anos de idade e fazem da diferença etária mais um fator favorável ao aprendizado. “Quando tenho dificuldades com a matéria, peço ajuda aos colegas”, afirma Zilene Alves da Silva, 45.
 

O clima de colaboração atrai até ajuda externa. Victor Augusto, irmão de um ex-aluno, ficou sabendo que a professora precisava de ajuda para um trabalho de artes e se prontificou a contribuir. “Eu canto, toco, faço malabares, grafito, enfim, estou disponível pra várias atividades nas aulas de artes”, prontifica-se ele. “Buscamos interagir com a cidade, não só promovendo aulas externas em teatros e museus, mas também nos mantendo abertos à comunidade da qual os alunos são parte”, justifica a professora.
 

As trajetórias são diversas, mas o objetivo é um só: concluir os estudos. Zilene casou-se muito jovem e passou boa parte da vida dedicando-se exclusivamente à casa e aos filhos. Agora, resolveu voltar por incentivo do próprio filho, ex-aluno do programa. “Vou concluir o ensino médio”, compromete-se. Aos 17 anos, Joice também encontrou na turma a motivação para retornar aos estudos depois de seis meses longe da sala de aula. “Quero dar aula assim como a Ana”, espelha-se ela.
 

 

27/06/2017. Educação que faz a diferença. Fotos: Divulgação/PBH