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Idoso lê livro, sentado em frente a uma mesa.
Foto: Karen Moreira/PBH

Pacientes que viviam em manicômios ganham nova chance para recomeçar

07/12/2018 | 16:03 | atualizado em 07/12/2018 | 16:09
Sentado na varanda da sua casa, Toninho Albergaria lê o capítulo de um livro que conta a sua própria história. Emocionado, ele relembra sua trajetória de vida, quando, ainda jovem, veio para Belo Horizonte. Sonhador e cheio de planos, aos 18 anos, não podia imaginar que uma reviravolta o deixaria por 33 anos internado em um hospício. “Foi um tempo muito triste da minha vida porque estava sozinho e não podia sair. Pensava todos os dias que eu tinha que sobreviver”, revela. Para passar o tempo, ele mergulhava em suas canções favoritas de “Ângela Maria” e, por anos, elas o inspiraram a sonhar com um mundo melhor e diferente daquele em que vivia.

Hoje, aos 73 anos de idade, mas ainda menino de alma, Toninho aproveita a liberdade de morar em um lugar rodeado por amigos. Localizada no bairro Santa Amélia, a casa faz parte do Serviço de Residência Terapêutica, mantido pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Saúde.

Com o fim dos manicômios na capital, seguindo as diretrizes da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial, os pacientes desospitalizados que perderam o vínculo familiar, precisaram ser amparados pelo poder público. Estas casas possibilitam aos cidadãos, antes excluídos do convívio social, a chance de conviver em sociedade e de terem os demais direitos respeitados. De forma humanizada, nessas moradias eles recebem apoio e supervisão de profissionais de saúde mental e são novamente inseridos nos espaços públicos, onde podem circular, fazer compras, praticar esportes, usufruir do lazer e descanso. Nas residências terapêuticas, as pessoas deixam de ser pacientes e tornam-se moradores, sujeitos com direitos e deveres. Uma vida digna que todos merecem.

Vários moradores participam da rotina de cuidado da casa, fazem compras de supermercado e vão até os centros de saúde. Alguns administram o próprio dinheiro, fazem passeios pela comunidade, visitam os vizinhos, frequentam igrejas, praças, sorveterias, padarias, parques, cinemas, shoppings, churrascarias. Eles participam das atividades dos centros de convivência, teatros, Escola de Jovens e Adultos, e até mesmo viajam para a praia de avião. As rotinas e atividades dos moradores variam de acordo com o Projeto Terapêutico, conforme nível de autonomia e desejo de cada um.

Para o coordenador de Saúde Mental da Secretaria de Saúde, Fernando Siqueira, esse serviço surge na história da Reforma Psiquiátrica como uma resposta à falsa proposta de tratamento que, até então, era ofertado pelo poder público. “Esse serviço representa o ápice da luta antimanicomial. É uma grande vitória alcançada diante do tamanho do preconceito e do completo abandono que essas pessoas enfrentaram. É muito gratificante ver como cada um conseguiu dar a volta por cima e recomeçar”, disse.

A música, que antes embalava a tristeza de quem não tinha nenhum motivo para cantar, hoje é entoada com a alegria e com a liberdade de quem teve a oportunidade de recomeçar e dar um novo significado para a vida: “Trago a vida agora calma, Um tango dentro d'alma, a velha história de um amor que no tempo ficou...”, cantou Toninho Albergaria, um trecho da sua música preferida.
 


Serviço de Residência Terapêutica na Rede SUS-BH

Atualmente, Belo Horizonte conta com 33 unidades, localizadas em oito regionais da cidade, onde residem 257 pessoas. A primeira casa foi inaugurada em 2001, no bairro Concórdia, e a última, em 2016, no bairro Esplanada. A assistência médica é ofertada majoritariamente pelos centros de saúde, em caso de urgências clínicas, os pacientes são encaminhados para as UPAS e hospitais gerais.

Quando há ocorrências de crise psiquiátrica, os serviços contam com os Centro de Referência em Saúde Mental, das 7h às 19h e, à noite, das 19h às 7h, e com o Serviço de Urgência Psiquiátrica, que atende 24h, durante 7 dias por semana.

As equipes que trabalham nas residências são formadas por um supervisor de nível superior (Psicólogo, Assistente Social, Enfermeiro ou Terapeuta Ocupacional); cuidadores 24h em regime de escala; estagiário; técnico de enfermagem quando necessário; auxiliar de serviços gerais; referência técnica para gestão do cuidado e um coordenador.

As Residências Terapêuticas são mantidas, exclusivamente, por recursos públicos. São habilitadas e credenciados pelo Ministério da Saúde e recebem um valor mensal para custeio. O município também tem uma contrapartida no custeio mensal da casa.
 
 

07/12/2018. Pacientes que viviam em manicômios ganham nova chance para recomeçar. Fotos: Karen Moreira/PBH