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Dois vendedores em lanchonete no entorno do Hospital Metropolitano Dr. Célio de Castro.
Foto: Divulgação PBH

Funcionamento do Hospital Dr. Célio de Castro promove desenvolvimento na região

14/12/2018 | 16:41 | atualizado em 14/12/2018 | 16:43
Desde que atingiu a capacidade máxima de atendimento, há um ano, o Hospital Metropolitano Dr. Célio de Castro movimenta o comércio do Barreiro e melhora a vida econômica dos moradores, que viram a oportunidade de investir em serviços para atender trabalhadores e usuários da unidade. O funcionamento integral da unidade de saúde gerou postos de trabalho direta e indiretamente em uma região com poucas ofertas de comércio e serviço. 

O hospital de grande complexidade conta com dois mil trabalhadores e realiza cerca de 1300 internações por mês. Além disso, diariamente, recebe mais de 600 pessoas para visitas ou consultas. E foi esse movimento que inspirou aposentado Márcio Antônio Júnior, 68 anos, a abrir um restaurante na rua do hospital. 

“Esta rua era um deserto. Não passava carro. De comércio, não tinha nada. Hoje, onde é o Hospital, era um depósito”, conta o aposentado Márcio Antônio Júnior, 68 anos, morador da rua Dona Luiza e vizinho de frente do Hospital Metropolitano Dr. Célio de Castro. Ele conta que começou timidamente, vendendo picolé. Cada vez que aumentava o fluxo de pessoas no hospital, em virtude da ampliação do atendimento, Márcio Antônio, ampliava também o seu negócio. 

Em 2017, o hospital começou a funcionar com 100% da capacidade de atendimento e o comerciante viu a renda familiar aumentar em mais de 1000%. A esposa de Márcio, Marli Soares, conta que, no início, chegaram a vender mil picolés por semana e, com a chegada dos primeiros contratados do Hospital, começaram os pedidos por novos produtos. “Vocês podiam colocar umas mesinhas aqui fora. Dona Marli, por que não faz café e bolo para vender? Vimos, então, que tínhamos cliente e potencial para crescer.”

No início, o local de atendimento aos clientes era improvisado, acontecia na garagem da casa da família, que segundo ela, era do espaço de um carro. “Eu me lembro de um dia que caiu uma chuva forte e cinco médicos que estavam aqui se molharam completamente”, dia. 
 

O telhado, ela conta, foi conquistado com a renda de um mês de trabalho com o local já funcionando como lanchonete. Com o funcionamento 100% dos leitos do Hospital Célio de Castro, que ocorreu em dezembro de 2017, o movimento cresceu e a oportunidade gerou novo investimento no local. Parte da casa onde o casal mora foi derrubada para ampliação do negócio da família. A filha do casal, Maiara Lessa, 31 anos, gastrônoma, trabalhava como subchefe em um restaurante, largou o emprego e hoje também vive do negócio da família. “Estava ficando apertado para o pai e a mãe sozinhos. O negócio é lucrativo, eles me fizeram a proposta e aceitei”, salienta. 

Em 5 de março deste ano, um novo espaço para o funcionamento da lanchonete foi inaugurado, já com Maiara integrando a equipe, e, em outubro de 2018, o local passou por nova ampliação. “A nossa renda familiar aumentou em 1000%”, afirma Maiara. 

Quem também viu a renda familiar se multiplicar “em 800%” foram a cantineira Judith Crispina de Oliveira, 61 anos, e a filha, Pollyanna Ferrari Rodrigues Martins, 32 anos, graduada em letras e pedagogia. Também moradoras do Barreiro, Judith viu a oportunidade de abrir o próprio negócio e tratou logo de alugar uma casa para montar um restaurante.  O restaurante da Juju, como é conhecida entre os trabalhadores do Hospital, está localizado em uma das esquinas em frente ao quarteirão que a unidade de saúde ocupa.  

“Começamos com uma lanchonete e depois ampliamos. Eu fazia comida pra gente e as pessoas da obra começaram a falar que o cheiro estava bom, que a gente podia fazer para vender. Fizemos marmitex por dois dias, no segundo dia, já compramos o self service”, lembra Judith. 

Há três anos, Judith e Pollyanna vivem financeiramente da renda do restaurante. Mais do que negócios, o empreendimento gerou também amizades e um carinho recíproco. “Gosto muito dos meus clientes, todos são muito atenciosos. Eu fui pioneira aqui. Faço a comida como se fosse para a minha família. Fazemos o nosso tempero, o nosso próprio molho porque a nossa preocupação é que todo mundo se alimente bem. Por isso faço questão de comprar eu mesma os ingredientes. Sei que fritura tem mais saída, as pessoas gostam e eu faço para agradar, mas sempre ofereço junto verduras e legumes”, diz. Atualmente, mãe e filha vendem, em média, 100 refeições ao dia. “Tudo que conquistamos é com muita luta”, resume Judith. 
 

Novas oportunidades

Vizinhos e empreendedores pioneiros, Márcio e Juju presenciam a continuidade do crescimento dos negócios na região. Recentemente, uma rede nacional de supermercados abriu uma nova unidade na rua Dona Luiza, endereço do Hospital Célio de Castro. Somente nesta rua, em 2018, também foram inauguradas uma loja de doces, dois estacionamentos e uma farmácia  também está prestes a inaugurar.

Glaúcia Ferreira, 38 anos, que trabalhava como motorista de transporte escolar, mudou de rumo profissionalmente ao decidir, junto com o marido, Paulo Cesar Ferreira, 41 anos, comprar a casa da mãe, que era vizinha do hospital e não se adaptou à movimentação de pessoas, carros e ônibus no bairro. 

A antiga residência se transformou em três negócios. Por enquanto. Paulo fez um estacionamento com 24 vagas, que ele administra com a ajuda do filho caçula, Samuel; uma loja que alugou e que hoje funciona uma lanchonete; e Gláucia montou uma loja de doces. “Temos o projeto de construir mais quatro lojas e uma sala ou flat”, conta ele. A filha do casal, Ana, 20 anos, está trabalhando com a mãe. Segundo Paulo, o empreendimento complementou a renda da família em 50%. Ele também atua como gerente de operações de empresa de transporte. 

Moradora do Barreiro, a família reconhece o ganho que o Hospital trouxe para a região. “Aqui não tinha nem linha de ônibus”, observa Gláucia. Para facilitar o acesso de pacientes, familiares, visitantes e trabalhadores, a BHTrans mudou o itinerário de duas linhas de ônibus, que começaram a passar na porta do Hospital no final de 2017. 

Em maio deste ano, uma nova linha, a 208, passou a atender a região. Márcio ressalta que o empreendimento melhorou a qualidade de vida dos moradores da região. “Para o bairro, a chegada do Hospital foi um espetáculo, os imóveis valorizaram, não tinha comércio perto, nada. Há dez anos, um vizinho vendeu o lote dele por R$ 60 mil. Ele morreu chorando por não ter acreditado no potencial da região”.
 


Emprego


Quem alugou a loja de Paulo e Gláucia foi Elci Rodrigues Neves Leal, 54 anos. Moradora da Vila Pinho, na região do Barreiro, ela e a família viviam uma situação de desemprego há três anos quando viram a possibilidade de abrir um negócio em razão do funcionamento 100% do Hospital. “Precisávamos fazer algo para sobreviver, estávamos desempregados, eu e meu marido. A nossa ideia era atuar como ambulante na porta do Hospital, vendendo suco, café e salgado. Mas vimos a placa de aluguel da loja e imediatamente comecei a providenciar a papelada para ser locatária”, conta Elci.

Em 26 de janeiro de 2018, ela abriu a lanchonete. O começo foi difícil. “Não tínhamos mobiliário, peguei emprestado dois jogos de mesa e cadeiras. Os fornecedores dos produtos só aceitavam dinheiro, não tínhamos capital de giro e peguei dinheiro emprestado com as minhas irmãs”, relembra. 

Em dez meses de negócio, está com tudo montado, é cliente conhecida dos fornecedores e está prestes a concluir o pagamento do empréstimo. “Estamos tirando daqui o sustento da nossa casa”, afirma. Sobre a concorrência, ela revela o clima é de cooperação. “Somos todos amigos, está todo mundo crescendo junto”, salienta Elci. Judith concorda. “O Márcio sempre manda cliente pra mim e a gente pra ele”.

A paisagem – de bairro pacato e silencioso – mudou, mas o clima de vida em comunidade permanece. Para Maiara, esse movimento todo fez bem para o Marcio. “Para o meu pai, isso aqui foi importantíssimo. Antes do Hospital, ele passava o dia deitado vendo televisão. Acho que ele já podia ter até morrido. Tudo valeu a pena. O carinho que recebemos não é só de funcionários. Fazemos amizade com os familiares de pacientes que voltam do interior para ver a gente”, relata Maiara . E ele concorda com a filha. “Do pessoal da limpeza aos médicos, a amizade é o que vale a pena”, concorda Márcio. 
 
 

14/12/2018. Especial Hospital Célio de Castro - Crescimento Econômico. Fotos: Divulgação/PBH