Pular para o conteúdo principal

Estudantes ciclista e carros dividem via pública
Foto: André Guilherme/BHTrans

Estudos avaliam implantação da "Zona 30", que viabiliza a cidade para todos

14/09/2018 | 17:25 | atualizado em 14/09/2018 | 17:25
Vias locais com velocidade máxima de 30km/h para veículos, priorizando quem anda a pé, de bicicleta ou quem tem mobilidade reduzida, principalmente os idosos. Este é o significado do projeto Zona 30 que faz uma opção pela preservação da vida já que a sua implantação reduz, significativamente, o número de acidentes nessas vias, transformando-as em locais mais seguros, com o uso do espaço urbano para uma convivência entre as pessoas, um acesso mais tranquilo a serviços ou um espaço para contemplar a paisagem.

Coordenadora de Sustentabilidade e Meio Ambiente da BHTrans, Eveline Trevisan salienta que a implantação do projeto Zona 30 é bom para todos e destaca os benefícios para os idosos. “Eles conseguem fazer a travessia em seu ritmo, circulam na via com mais segurança e ainda usufruem de uma interação maior com outras pessoas” assegura.

Eveline explica que para garantir esses benefícios para as pessoas é necessário promover intervenções que caracterizem o espaço público como uma área diferenciada. “Não basta regulamentar a velocidade para 30 km/h. É necessário tratar um conjunto de ruas, em uma região específica, com uma série de medidas combinadas, como, por exemplo, rever o desenho e a ocupação das vias, fazer acréscimos de calçadas nas esquinas, criar sinuosidades no traçado da rua, intercalar a modalidade de estacionamento – 45º, 90º, paralelo -, instalar rotatórias e travessias elevadas, ocupar espaços com bancos, plantas e até praças”.

De acordo com a coordenadora, o conceito principal é garantir com que a velocidade dos veículos se mantenha baixa, invertendo as prioridades no uso da via. “Precisamos desses artifícios urbanos para que os condutores compreendam que estão trafegando em um lugar diferenciado, em que a intenção é preservar a vida das pessoas e oferecer mais qualidade de vida para aqueles que caminham pelas ruas da cidade. E, por isso, a identidade visual também é muito importante”, esclarece Eveline.
 

Tendência

A instalação de Zonas 30 é uma medida contemporânea e vem sendo aplicada em diversos países, como Inglaterra, Holanda, França, Áustria, Espanha, Canadá, México, dentre outros. As cidades alemãs de Bremen e Leipzig, com as quais Belo Horizonte mantém uma parceria desde 2012, também são exemplos de instalação de ambientes de restrições amigáveis para os carros para a prioridade da segurança dos pedestres.
 
Segundo o Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento (ITDP), em 2014, a Prefeitura de Nova Iorque criou o programa Vision Zero, cuja meta é zerar o número de mortes no trânsito até 2024. Além da redução dos limites de velocidades para 40 km/h, adotou-se o aumento da fiscalização para identificar motoristas que não param para a travessia de pedestre e a instalação de fiscalização eletrônica de velocidade. Em um ano do programa, foi registrada uma queda de 15% no número de mortes.
No Brasil, as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba já contam com áreas que tiveram as velocidades dos automóveis limitadas para o uso seguro da circulação de pedestres e dos ciclistas.
 

Estudos de Zona 30 em Belo Horizonte

Em agosto, duas áreas de Belo Horizonte foram alvo de estudos, que por suas características são potencialmente favoráveis à implantação de projeto de Zona 30: a região hospitalar, local de grande circulação de idosos; e em um perímetro de vias do bairro Cachoeirinha, onde se concentram um lar de idosos, uma igreja e três escolas e onde, devido à grande movimentação de pessoas nas vias, pode haver conflitos entre crianças, adolescentes, idosos e automóveis.

Durante a visita no Cachoeirinha, foi possível verificar as questões de segurança relativas ao uso das ruas, inclusive por alunos das escolas no entorno, no horário de término das aulas.

Esses estudos fizeram parte das atividades do Workshop Internacional “CONNECTIVE CITIES: discutindo as Zonas 30 e uma cidade viável para todas e todos”, ocorrido em Belo Horizonte entre os dias 20 e 23/8/2018. O evento trouxe à cidade especialistas internacionais, representantes do ITDP, do WRI BRASIL, de diversas áreas da PBH, da sociedade civil, de comunidades e da BHTrans para discutirem as bases necessárias ao desenvolvimento de projetos Zona 30 em BH, os desafios para sua viabilização e conhecer casos bem-sucedidos”. A coordenadora de Projetos de Saúde e Segurança Viária do WRI, Marta Obelheiro, que fez uma apresentação sobre boas práticas para criação de Zona 30, falou sobre sua percepção do evento em Belo Horizonte e como o WRI contribui com o desenvolvimento de ações que promovem a melhoria da mobilidade com condições mais favoráveis à segurança de pedestres e de ciclistas.

Hoje, os pedestres, sobretudo os idosos, e os ciclistas, mais frágeis na via, aumentam os números de mortos e feridos em batidas e atropelamentos. Segundo um artigo do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), com velocidades baixas, o campo de visão do motorista é ampliado. De acordo com o artigo, isso resultaria em uma maior interação com o ambiente e com as pessoas ao redor, evitando colisões e atropelamentos. A probabilidade de atropelamentos com mortalidade de pedestres também é drasticamente reduzida: de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a probabilidade de mortalidade de pedestres em impactos a 50 km/h é de 85%, enquanto que, quando o impacto ocorre a 30 km/h, o número cai para 10%”.
 

14/09/2018. Estudantes na Via. Fotos: Andre Guilherme/BHTrans