4 November 2026 -
“O Centro de Convivência é a minha segunda casa. Aqui a gente é acolhida, aprende sobre muitas coisas, inclusive sobre ter empatia para conviver com a nossa família, que muitas vezes não nos compreende”. O relato de Vivien Astolfi, 56 anos, usuária de um dos centros de convivência de Belo Horizonte, revela como o acolhimento, a arte e as relações construídas nesses espaços podem transformar o cotidiano de pessoas em sofrimento mental e daquelas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas.
Os centros de convivência integram a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) da Prefeitura de Belo Horizonte. Os equipamentos promovem autonomia, participação social, construção de vínculos e superação de estigmas. As atividades incluem oficinas de arte e artesanato, práticas físicas e participação em eventos culturais, com foco no cuidado em liberdade e na inclusão social.
Oportunidade para recomeçar
Na recepção do Centro de Convivência Nise da Silveira, na Pampulha, as pinturas em tela e os bordados expostos revelam histórias que vão muito além das cores, traços e linhas. Entre as obras estão os trabalhos de Vivien Astolfi, encaminhada ao serviço pelo centro de saúde em um período de forte isolamento e dificuldade de interação social.
Com o tempo, as oficinas e o contato com outras pessoas ajudaram a desenvolver sua confiança e ampliar suas relações. “Quando cheguei, eu ficava quieta no meu canto. Depois fui melhorando a convivência e hoje tenho amigos aqui, frequento a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e já participei de passeios a Inhotim, Cordisburgo, Centro Cultural Banco do Brasil e Parque das Mangabeiras”, contou.
As mudanças também foram percebidas pela família, uma dimensão importante do processo de fortalecimento dos vínculos. “Na minha família tem pessoas que perceberam que eu mudei, me aceitam melhor e isso é muito importante para mim”, analisou Vivien.
Acolhimento que considera a história de cada pessoa
Segundo a gerente da unidade, Maíra Santos, o percurso de quem chega em busca do serviço começa pelo acolhimento, momento que visa conhecer a história de vida do usuário, suas experiências profissionais, habilidades, interesses e expectativas. A participação da família também faz parte do acompanhamento, porém nem sempre ocorre no primeiro acolhimento, pois há usuários que procuram o serviço sem estarem acompanhados de familiares.
A gerente destacou que um dos diferenciais dos Centro de Convivência está na forma como são organizados. “São espaços de sociabilidade que não foram organizados pela lógica do tratamento/adoecimento, mas pela lógica do encontro com o outro e suas potencialidades”, explicou.
Maíra ressaltou ainda que a convivência e as experiências artísticas e culturais ajudam os usuários a ampliar suas possibilidades de participação em diferentes áreas da vida. “A partir desses encontros e das experiências com a arte e a cultura, os usuários vão se fortalecendo para a inserção em outros campos e projetos de vida, como, por exemplo, os estudos ou o trabalho”.
Além disso, os trabalhos artísticos criados pelos usuários ultrapassaram os limites das unidades. As produções já foram expostas em centros culturais regionais, no Circuito Liberdade, na Mostra de Arte Insensata, na Funarte e na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), entre outros espaços. Essas experiências ampliam a participação social e ajudam a combater o preconceito, mostrando que o sofrimento mental não define as capacidades, os interesses ou os projetos de uma pessoa.
Como acessar os Centros de Convivência
O acesso ocorre por encaminhamento de profissionais da Rede de Atenção Psicossocial, como os que atuam nos centros de saúde, nos Centros de Referência em Saúde Mental (Cersam), nos Centros de Referência em Saúde Mental Álcool e outras Drogas (Cersam-AD) e nos Consultórios na Rua. Profissionais da rede privada também podem encaminhar usuários. A orientação é que a pessoa seja direcionada ao Centro de Convivência de referência mais próximo de sua residência. As unidades funcionam de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.
O que é a Rede de Atenção Psicossocial?
A Rede de Atenção Psicossocial reúne serviços destinados a pessoas em sofrimento mental e àquelas que enfrentam problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Em Belo Horizonte, inclui centros de saúde, Cersam, Cersam-AD, Cersami, Consultórios na Rua, Serviços Residenciais Terapêuticos, Unidades de Acolhimento, Arte da Saúde – Ateliê de Cidadania e Centros de Convivência.
